Emma
Goldman inicia seu artigo chamando a atenção para os processos autoritários
construídos por um Estado para validar o poder de políticos, ou seja, de uma
minoria que detém o poder social, sobre uma maioria destituída de poderes.
Na
política, somente a quantidade importa. Proporcionalmente a esse aumento,
porém, os princípios, os ideais, a justiça e a honradez são engolidos por um
mar de números. Na luta pela supremacia, os vários partidos se superam em
mentiras, fraudes, astúcias e tramas duvidosas, seguros de que, aquele que
obtiver êxito será aclamado pela maioria como vencedor (Goldman, p.124 , 2008)
Nesse
processo de construção de massa, há uma crítica subjacente tanto aos mecanismos
de comunicação de massa como as estruturas de validação do poder dentro dessa
sociedade burguesa, nesse sentido as eleições para Goldman, não passam se
espetáculos arquitetados por partidos políticos na intenção de ludibriar e
alienar a população em geral, para tanto constroem –se demandas através de uma
cultura de massa vulgarizada, onde o consumo e a quantidade são colocados como
princípios artísticos de sucesso, uma espécie de drama social constituído para
que a população possa consumir e produzir sem questionamento, alienando a
individualidade e a criatividade nas relações culturais.
Esses
dramas sociais são costurados através de estruturas burguesas que permitem o
livre trânsito de seus produtos subjetivados, que apenas reforçam os processos
de exploração social, em contra partida os produtos subjetivados fora das
estruturas burguesas, não encontram espaço para circulação dentro da massa,
ficando a mercê de circuitos marginais. Dessa forma a marginalização simbólica de
ideias coloca dessa forma uma maioria que compartilha valores comuns de modo
antagônico a uma minoria que procurar resistir, mas que cedo ou tarde será
esmagado, pois as estruturas de validação do poder – os partidos políticos – se
utilizarão dos instrumentos de alienação em massa, para a produção de uma falsa
realidade.
Nesse
sentido os mecanismos de alienação são constituídos a partir de ruptura entre
empoderamento individual e prol de uma falsa representatividade, onde os
partidos políticos procuram engendrar mecanismos de perpetuação do poder que
possam cumprir a necessidade da maioria, mas mesmo os programas mais
socialistas quando entram na lógica democrática do estado burguês irão
necessitar fazer concessões, nesse sentido à concessão é feita em relação aos
explorados, para Goldman esse processo político não representa a usurpação do
empoderamento individual em prol de uma empoderamento massificado, onde o voto
é moeda de troca necessária para a validação do poder.
Goldman
exemplifica sua concepção através de exemplos na educação, na política e na
arte, onde o consumo do que é massificado acaba por oprimir a minoria,
marginalizando os pensamentos autônomo ou discordante.
Hoje,
como antes, a opinião pública é o tirano onipresente; hoje, como antes, a maioria
representa uma massa de covardes ansiosa para aceitar aquele que espelhe
miséria de sua própria mente e alma. Isso explica ascensão sem precedentes de
um homem como Roosevelt . Ele encarna o pior elemento da psicologia do
populacho. Como político, ele sabe que para a maioria pouco importam ideais ou
integridade. O que ela exige é o espetáculo. Não importa se é uma exposição de
cães, uma luta por prêmios, o linchamento de um ‘criolo’, o cerco a algum
infrator insignificante, o casamento de alguma herdeira, ou as palhaçadas de
algum ex-presidente. (Goldman, p 127-128, 2008)
A
cultura de massa produzida pela sociedade capitalista esta radicalmente
relacionada com a produção do poder na modernidade, nesse sentido através de
espetáculos constantes procurasse alienar a população, bem como repassar seus
ideais a grande maioria, par que possa ser introjetados em suas subjetividades,
ao ponto que passem a ser seus. Essa dupla funcionalidade da cultura de massa
se expressa em programas, novelas, produtos artísticos, em comédias e tragédias
cotidianas.
Os
veículos de comunicação, bem como produtores visam o lucro, do mesmo modo que
os políticos visam o voto, para tanto que forma mais sofisticada de controlar
uma população explorada que torna-la uma massa uniforme que não pensa e imersa
em uma realidade falseada e tendenciosa. Esse construção de cultura de massa só
é possível pela própria miséria humana nesse sistema de exploração que visa
oprimir as minorias, para tanto se criam espetáculos totais, como eleições,
copa do mundo, big brothers, novelas, blockbusters, para dessa forma criar uma
realidade rompida entre os sujeitos, eliminando o processo de reflexão.
Goldman
chega à conclusão de que a culpa da miséria se dá pela maioria que tratora as
minorias, sua crítica à sociedade de massa se dá não pela falta de consciência
de classe, mas por uma alienação de massa que visa integrar as consciências
individuais, que se realiza na perpetuação do poder estabelecido.
Sua
crítica é ao conceito de massa como um fenômeno uniforme que não possui
reflexão sobre a realidade, assumindo na verdade o que é ordenado pelas
estrutura vigente de poder.
Como
massa, seu objetivo foi sempre uma vida mais uniforme, cinzenta e monótona,
como deserto. Como massa, será sempre o exterminador da individualidade, da
livre iniciativa, da originalidade (Goldman, p 132, 2008)
Censurando
os mecanismos de massificadores da sociedade que visam abafar as possibilidades
da individualidade do sujeito, no entanto não fica claro se sua relação é
voltada o poder popular, mas remete a construção do empoderamento social
através do enfrentamento a comunicação de massa e as estrutura de validação do
poder baseadas na quantidade.
Pode-se
entender que Emma Goldman sugere outro tipo de organização social que rompa com
os valores capitalistas estabelecidos, que não seja pautada por uma quantidade,
mas por uma qualidade de consciência e pensamento. E que isso só poderá ser
alcançado a partir de organização de minorias sociais, ou seja, valorizando a
individualidade, nesse sentido sua proposta se aproxima de um pluralismo social
em que possa existir um diálogo face a face e relações esclarecidas entre os
sujeitos.
Sua
crítica é contra uma massa compactada, que subjulga o espírito humano e que
nunca lutou pela justiça e igualdade.
Goldman, Emma. Maioria vs Minoria. Verve, N 13, 2008.

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