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domingo, 4 de maio de 2014

A crítica à cultura de massa como instrumento alienante a partir de Emma Goldman. (Maioria vs Minoria)



Emma Goldman inicia seu artigo chamando a atenção para os processos autoritários construídos por um Estado para validar o poder de políticos, ou seja, de uma minoria que detém o poder social, sobre uma maioria destituída de poderes.

Na política, somente a quantidade importa. Proporcionalmente a esse aumento, porém, os princípios, os ideais, a justiça e a honradez são engolidos por um mar de números. Na luta pela supremacia, os vários partidos se superam em mentiras, fraudes, astúcias e tramas duvidosas, seguros de que, aquele que obtiver êxito será aclamado pela maioria como vencedor (Goldman, p.124 , 2008)

Nesse processo de construção de massa, há uma crítica subjacente tanto aos mecanismos de comunicação de massa como as estruturas de validação do poder dentro dessa sociedade burguesa, nesse sentido as eleições para Goldman, não passam se espetáculos arquitetados por partidos políticos na intenção de ludibriar e alienar a população em geral, para tanto constroem –se demandas através de uma cultura de massa vulgarizada, onde o consumo e a quantidade são colocados como princípios artísticos de sucesso, uma espécie de drama social constituído para que a população possa consumir e produzir sem questionamento, alienando a individualidade e a criatividade nas relações culturais.

Esses dramas sociais são costurados através de estruturas burguesas que permitem o livre trânsito de seus produtos subjetivados, que apenas reforçam os processos de exploração social, em contra partida os produtos subjetivados fora das estruturas burguesas, não encontram espaço para circulação dentro da massa, ficando a mercê de circuitos marginais. Dessa forma a marginalização simbólica de ideias coloca dessa forma uma maioria que compartilha valores comuns de modo antagônico a uma minoria que procurar resistir, mas que cedo ou tarde será esmagado, pois as estruturas de validação do poder – os partidos políticos – se utilizarão dos instrumentos de alienação em massa, para a produção de uma falsa realidade.

Nesse sentido os mecanismos de alienação são constituídos a partir de ruptura entre empoderamento individual e prol de uma falsa representatividade, onde os partidos políticos procuram engendrar mecanismos de perpetuação do poder que possam cumprir a necessidade da maioria, mas mesmo os programas mais socialistas quando entram na lógica democrática do estado burguês irão necessitar fazer concessões, nesse sentido à concessão é feita em relação aos explorados, para Goldman esse processo político não representa a usurpação do empoderamento individual em prol de uma empoderamento massificado, onde o voto é moeda de troca necessária para a validação do poder.

Goldman exemplifica sua concepção através de exemplos na educação, na política e na arte, onde o consumo do que é massificado acaba por oprimir a minoria, marginalizando os pensamentos autônomo ou discordante.
Hoje, como antes, a opinião pública é o tirano onipresente; hoje, como antes, a maioria representa uma massa de covardes ansiosa para aceitar aquele que espelhe miséria de sua própria mente e alma. Isso explica ascensão sem precedentes de um homem como Roosevelt . Ele encarna o pior elemento da psicologia do populacho. Como político, ele sabe que para a maioria pouco importam ideais ou integridade. O que ela exige é o espetáculo. Não importa se é uma exposição de cães, uma luta por prêmios, o linchamento de um ‘criolo’, o cerco a algum infrator insignificante, o casamento de alguma herdeira, ou as palhaçadas de algum ex-presidente. (Goldman, p 127-128, 2008)

A cultura de massa produzida pela sociedade capitalista esta radicalmente relacionada com a produção do poder na modernidade, nesse sentido através de espetáculos constantes procurasse alienar a população, bem como repassar seus ideais a grande maioria, par que possa ser introjetados em suas subjetividades, ao ponto que passem a ser seus. Essa dupla funcionalidade da cultura de massa se expressa em programas, novelas, produtos artísticos, em comédias e tragédias cotidianas.

Os veículos de comunicação, bem como produtores visam o lucro, do mesmo modo que os políticos visam o voto, para tanto que forma mais sofisticada de controlar uma população explorada que torna-la uma massa uniforme que não pensa e imersa em uma realidade falseada e tendenciosa. Esse construção de cultura de massa só é possível pela própria miséria humana nesse sistema de exploração que visa oprimir as minorias, para tanto se criam espetáculos totais, como eleições, copa do mundo, big brothers, novelas, blockbusters, para dessa forma criar uma realidade rompida entre os sujeitos, eliminando o processo de reflexão.

Goldman chega à conclusão de que a culpa da miséria se dá pela maioria que tratora as minorias, sua crítica à sociedade de massa se dá não pela falta de consciência de classe, mas por uma alienação de massa que visa integrar as consciências individuais, que se realiza na perpetuação do poder estabelecido.
Sua crítica é ao conceito de massa como um fenômeno uniforme que não possui reflexão sobre a realidade, assumindo na verdade o que é ordenado pelas estrutura vigente de poder.

Como massa, seu objetivo foi sempre uma vida mais uniforme, cinzenta e monótona, como deserto. Como massa, será sempre o exterminador da individualidade, da livre iniciativa, da originalidade (Goldman, p 132, 2008)

Censurando os mecanismos de massificadores da sociedade que visam abafar as possibilidades da individualidade do sujeito, no entanto não fica claro se sua relação é voltada o poder popular, mas remete a construção do empoderamento social através do enfrentamento a comunicação de massa e as estrutura de validação do poder baseadas na quantidade.
Pode-se entender que Emma Goldman sugere outro tipo de organização social que rompa com os valores capitalistas estabelecidos, que não seja pautada por uma quantidade, mas por uma qualidade de consciência e pensamento. E que isso só poderá ser alcançado a partir de organização de minorias sociais, ou seja, valorizando a individualidade, nesse sentido sua proposta se aproxima de um pluralismo social em que possa existir um diálogo face a face e relações esclarecidas entre os sujeitos.
Sua crítica é contra uma massa compactada, que subjulga o espírito humano e que nunca lutou pela justiça e igualdade.


Goldman, Emma. Maioria vs Minoria. Verve, N 13, 2008.

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