As bases do desenvolvimento da sociedade capitalista no qual
estamos inserid@s, não se baseiam somente no cálculo administrado da exploração
humana, de uns sobre os outros, mas também a partir de valores conservadores
que permitem que essa estrutura se reproduza em larga escala e em
microrrelações.
Esses valores são permeados por elementos heteronormativos,
etnocêntricos e patriarcais. Gostaria de elencar a questão etnocêntrica
referindo-se a questão do homem branco, ou seja, a figura do colonizador que
através da violência expropria e deteriora a história, os valores e concepções
de diversos povos ao longo do globo terrestre na medida em que o imperialismo e
o mercantilismo tecia suas garras pelos vastos territórios, tanto a figura representativa dos séculos anteriores, como a figura reconstruida na grande mídia ao longo do século XX.
Em nome desses processos, populações inteiras foram
escravizadas, saqueadas, dizimadas, para ostentar o luxo e desenvolver
artefatos culturais nas “metrópoles”, essa produção das ideias a partir das
relações de produção e da interação de grupos na divisão social do trabalho no
período contemporâneo acabou por elencar determinados sujeitos como
protagonistas a serem reproduzidos pela arte burguesa. Esse sujeitos eram brancos, homens e europeus, na medida em
que o próprio Estados Unidos da América se torna uma potencia imperialista, ao
longo do século XIX, ele passa a reescrever sua história e os modos de produção
cultural, buscando invisibilizar todos os sujeitos que de alguma forma fugissem
a normatividade instituída a partir dessa relações. O mesmo ocorre nas produções literárias, artísticas eurocêntricas.
A partir do momento que a população negra, bem como o
movimento LGBT e os movimentos feministas ganham espaços nos debates na esfera
pública, através de ação direta em determinados momentos, através de luta pelo
reconhecimento em outros momentos, as questões sobre o monopólio da
representação no campo cultural da sociedade capitalista passa a ser
questionado e reivindicado do mesmo modo.
Essa síntese que fiz tem como objetivo apresentar
um argumento, que em uma disputa de classes, no enfrentamento ao machismo, ao
racismo e a heteronormatividade, uma luta pela construção de representações é
tão importante como os piquetes para parar a relações objetivas do capital.
O capitalismo por sua vez possui mecanismos instrumentais
para incorporar a sua lógica de desenvolvimento uma falsa representação das
populações fora do eixo de valores originários de populações negras e indígenas. A moral burguesa se
empenha em fingir que deixa de lado esses valores, quando na verdade busca aperfeiçoar
seus mecanismos de controle, dominação e exploração
A disputa no campo das representações é uma luta no qual as
regras estão dadas pela técnica produzida pelo mundo capitalista, isso
significa que este define o tipo de representatividade a ser apresentada em
determinados ramos da produção cultural de massa. A industria estaduniense
acaba definindo determinados valores de consumo e de reprodução de
representatividades. Do mesmo modo o cenário eurocêntrico onde se produz outras
formas cultura e conhecimento que visam afastar as populações de emancipar-se
das ideias que lhe são impostas.
Ocorre que as pessoas disputam essa representatividade, na
medida em que localmente as interações sociais produzem outras formas culturais
e de representatividade, dessa forma a luta pela representatividade autônoma capaz
de comunicar de fato os elementos importantes para a emancipação sociais dos
indivíduos, não pode ser relegada a um segundo plano.
É uma erro estratégico
- enquanto libertárixs, socialistxs e anarquistxs – ignorar o que isso
representa, pois o Estado e o Capital andam de mãos dadas para sabotar e
deslegitimar a luta por representatividade nos campos das produções culturais,
precisamos reforçar a luta autônoma, uma ação cultural direta, em nossas
produção que busquem enaltecer a população negra, indígena, campesina, na
medida em que iremos reiventar as formas de produção cultural de uma forma
anticapitalista.
Trabalho esse que não de forma alguma fácil, pois precisamos
destruir estruturas simbólicas compartilhadas e modos de produção de ideias que
há muito tempo estão vigentes dentro da sociedade, nossa luta precisa ser:
A ) pela
construção de outros espaços culturais, onde o lucro não seja objetivo final,
ação essa que diversos coletivos, associações e grupos de luta autônomas,
libertárias, de tendências anticapitalistas, realizam constantemente nos
espaços.
B) Na
luta pela legitimação de representações autônomas e emancipatórias, isto é,
atacar a linguagem capitalista de produção de representatividade e não as
diversas população que estão em disputa, mesmo que o horizonte não seja
libertário, a nossa luta ideológica se faz na prática, nosso discurso caminha
aliado com nossa ação, precisamos lembrar da máxima de estar lado a lado com
aqueles que estão contra os poderes hegemônicos em todas esferas.
C) O
desafio de descolonizar nossa compreensão de realidade, o que envolve um
atividade constante consumo e produção de outras formas culturais, a contra
cultura precisa ser impregnada de ideais contra -hegemônicos, de modo algum
rendendo-se as diretrizes do capital.
Essas três formas de ação envolve parâmetros essenciais de
uma luta por representatividade, que não pretende ser a correta, muito menos a
única, essa disputas ocorrem cotidianamente na medida em que estamos buscando
desestruturar os valores hegemônicos que permitem controle, dominação e exploração
social nessa sociedade, não podemos nos aliar e atirar pedras contra nós
mesmos, precisamos declarar guerra a quem de fato são nossos inimigos, as
grandes corporações capitalistas, que se utilizam de uma luta legitima para
produzir mais capital, para “inserir” um número maior da população nos meios de
produção.
Temos que ter em mente, que a emancipação das ordens econômicas
caminha concomitantemente com a emancipação das ordens culturais, lembrando
nossa ação direta visa ambas dimensões da realidade.
Para tanto, precisamos construir formas de
autorrepresentações para além do capital, isso é base para a revolução e para a
derrocada do Estado, pois na medida em que enfrentamos e construímos outras
estratégias, maiores são as chances de vencermos o neoliberalismo transversal
das relações sociais, produzidas nessa sociedade de capitalismo financeiro.
* Esse texto é uma debate sobre representatividade nas produções culturais, o termo representatividade é um conceito comum debatido por diversos campos do movimento social que envolve uma luta por reconhecimento de identidades.
Notas
1. A motivação para o desenvolvimento dessa reflexão é uma tentativa de situar estratégias de enfrentamento a apropriação de uma luta legitima feita pelo grande capital, os argumentos apresentados de forma sucinta servem apenas como um ponto de ignição para maiores debates a serem construídos ou desconstruídos, não é de modo algum um manual de regras, ao contrário é anti-manual.
2. O termo cultura ou cultural apresentado aqui envolve um campo semântico relacionado a produção cultural de nossa própria sociedade, tendo em mente que é um conceito caro, a cultura aqui apresentada compreende artefatos socialmente compartilhados que interferem subjetivamente nos campos das representações e ideias, quando me refiro a cultura como produção artística, mesmo sabendo que ela pode assumir outros significados.


