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quinta-feira, 13 de março de 2014

Depoimentos

1964 NUNCA MAIS
“Eram mais ou menos 2 horas da manhã quando chegaram à fazenda dos meus sogros em Nova Aurora. A cidade era pequena e foi tomada pelo Exército. Mobilizaram cerca de setecentos homens para a operação. Eu, meu companheiro e os pais dele fomos torturados a noite toda ali, um na frente do outro. Era muito choque elétrico. Fomos literalmente saqueados. Levaram tudo o que tínhamos: as economias do meu sogro, a roupa de cama e até o meu enxoval. No dia seguinte, fomos transferidos para o Batalhão de Fronteira de Foz do Iguaçu, onde eu e meu companheiro fomos torturados pelo capitão Júlio Cerdá Mendes e pelo tenente Mário Expedito Ostrovski. Foi pau de arara, choques elétricos, jogo de empurrar e, no meu caso, ameaças de estupro. Dias depois, chegaram dois caras do Dops do Rio, que exibiam um emblema do Esquadrão da Morte na roupa, para ‘ajudar’ no interrogatório. Eu ficava horas numa sala, entre perguntas e tortura física. Dia e noite. Eu estava grávida de dois meses, e eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de muito choque, pau de arara, ameaça de estupro e insultos, eu abortei. Depois disso, me colocaram num quarto fechado, fiquei incomunicável. Durante os dias em que fiquei muito mal, fui cuidada e medicada por uma senhora chamada Olga. Quando comecei a melhorar, voltaram a me torturar. Nesse período todo, eu fui insultadíssima, a agressão moral era permanente. Durante a noite, era um pânico quando eles vinham anunciar que era hora da tortura. Quando você começava a se recompor, eles iniciavam a tortura de novo, principalmente depois que chegaram os caras do Dops. Durante anos, eu tive insônia, acordava durante a noite transpirando. De Foz, fomos levados para o Dops de Porto Alegre, onde houve outras sessões de tortura, um na frente do outro. Depois, fomos levados de volta para Curitiba, onde fiquei na penitenciária de Piraquara. Quando finalmente fui para a prisão domiciliar, que durou quatro meses, eu sofri muito, fui muito perseguida e ameaçada. Recebia telefonemas anônimos, passava noites sem dormir.”

Depoimento de Izabel Favero, ex militante do VAR-Palmares,  era professora quando foi presa em 5 de Maio de 1970, em Nova Aurora. Hoje vive em recife (PE), onde é professora de Administração


quarta-feira, 12 de março de 2014

Torturadas, Estupradas e Assassinadas – As Mulheres e a Ditadura

Marilene Villas Boas Pinto (1948 – 1971)

Estudante do segundo ano de Psicologia, no Rio de Janeiro. Marilene passou a viver na clandestinidade em 1969. A versão oficial  divulgada pelos órgãos  de segurança, foi a de que Marilene e seu companheiro entraram em enfrentamento como agentes da brigada  de paraquedista do Exército.







Iara Iavelberg, (1944 – 1971)

Durante muito tempo prevaleceu a versão de que Iara Iavelberg teria cometido suicídio com um tiro no coração, para fugir das torturas. Iara foi uma das mais procuradas pelos órgãos de repressão pelo seu envolvimento amoroso com Lamarca, na mesma operação que levou a sua morte Nilda Carvalho de Cunha (17 anos) também seria presa Durante as mobilizações estudantis de 1968 foi protagonista junto ao movimento estudantil, foi militante da Política Operária (POLOP), da VAR-Palmares e da VPR, tendo ingressado no MR-8 poucos meses antes de morrer.



Nilda Carvalho de Cunha (1954 – 1971) 


Nilda Carvalho foi presa na madrugada de 19 para 20 de agosto de 1971, no cerco montado ao apartamento onde morreu Iara. Ela foi solta em inicio de novembro, mas morreu dia 14 de Novembro, como sintomas de cegueira e asfixia. No relato do livro Lamarca, o capitão da guerrilha, É registrado o seguinte dialogo.
– Você já ouviu falar de Fleury? Nilda empalideceu, perdia o controle diante daquele homem corpuloso. – Olha, minha fi lha, você vai cantar na minha mão, porque passarinhos mais velhos já cantaram. Não é você que vai fi car calada [...]. Dos que foram presos no apartamento do edifício Santa Terezinha, apenas Nilda Cunha e Jaileno Sampaio ficaram no Quartel do Barbalho. Ela, aos 17 anos, ele, com 18. – Mas eu não sei quem é o senhor... – Eu matei Marighella. Ela entendeu e foi perdendo o controle. Ele completava: – Vou acabar com essa sua beleza – e alisava o rosto dela. Ali estava começando o suplício de Nilda. Eram ameaças seguidas, principalmente as do major Nilton de Albuquerque Cerqueira. Ela ouvia gritos dos torturados, do próprio Jaileno, seu companheiro, e se aterrorizava com aquela ameaça de violência num lugar deserto. Naquele mesmo dia vendaram-lhe os olhos e ela se viu numa sala diferente quando pôde abri-los. Bem junto dela estava um cadáver de mulher: era Iara, com uma mancha roxa no peito, e a obrigaram a tocar naquele corpo frio. No início de novembro, decidem libertá-la. Nilda, então, vai ao quartel-general, junto com dona Esmeraldina, pedir autorização para visitar Jaileno. O chefe da 2a Seção não permite. Na saída, descendo as escadas, ela grita: – Minha mãe, me segure que estou fi cando cega. Foi levada num táxi, chorando, sentindo-se sufocada, não conseguia respirar. Daí para a frente foi perdendo o equilíbrio: depressões constantes, cegueiras repentinas, às vezes um riso desesperado, o olhar perdido. Não dormia, tinha medo de morrer dormindo, chorava e desmaiava. – Eles me acabaram, repetia sempre [...].


Os documentos a respeito de sua morte nunca foram encontrados e/ou desparecera durante a década de 80, a mãe de Nilda foi ameaçada diversas vezes, sendo inclusive mais tarde vítima dos mesmos torturadores.


Fonte: Direito a Memoria e A verdade: Luta, substantivo feminino. Tatiana Melino – São Paulo. Editora Caros Amigos. 2010.

Perseguição Homofóbica Institucionalizada


A violência estabelecida pelas instituições de poder se constitui como marca definidora de suas características de controle e coerção social, estabelecendo através de sua ação violenta uma tentativa de normatividade sobre os sujeito, temos exemplos extremos desse tipo de violência empregada por manicômios, presídios e mesmo escolas que empregam métodos violentos como instrumentos pedagógicos, se qualquer modo os agentes que constituem essas instituições incorporam sua lógica e são instrumentos dessa violência contra a sociedade.

Para os agentes institucionalizadores não existe a possibilidade de alternativas a normatividade estabelecida, dessa forma incorporando a violência como instrumento de ação, sua relação com os sujeitos é pautada a partir do não reconhecimento do outro, dessa forma empregando a violência para exterminar qualquer forma de diversidade social.

Nesse sentido se estabelece dentro da própria gênese das instituições a serviço do Estado um tipo de perseguição institucionalizado a tipos divergentes da ordem estabelecida - os fora da norma, ou como defeniria Becker, os Outsiders - que constituem ou representam em seu modo de vida a divergência do sistema estabelecido.

Dessa forma as relações estabelecidas por essa instituições, através do Estado, são pautadas em valores estabelecidos historicamente, sendo este uma afirmação hegemônica de um determinado grupo que detém um poder e se encontra dentro das instituições públicas, reproduzindo preconceitos sexuais, de gênero e de classe. O Estado representa dessa forma o homem branco heterossexual  e toda sua hierarquia o mantém no poder, assim tudo que vá de encontro a essa tipificação social acaba por se tornar um desvio que necessita ser resolvido.

A partir dos anos 90, o Brasil procura transformar paradigmaticamente as instituições de poder visando um democratização da sociedade, buscando dessa maneira a compreensão da diversidade humana e social, após um período intenso de repressão e autoritarismo que representou o governo militar desde 1964, existe a compreensão que as ações autoritárias dessas instituições ocorrem por um ranço que permanece nela por conta desse período. No entanto, acreditamos que esse ranço é na verdade consequência da gênese das instituições como membros diretos de um Estado que é excludente, dessa forma não é alterando as instituições, mas derrubando o Estado que conseguiremos nos organizar de forma livre e democrática, essas instituições que procuram legitimar a democracia, apenas tornam esta mais distante de sua realização, pois sua normatividade e burocracia estão sujeitas ao capital e ao própria rega do Estado.

Essa afirmação parte do pressuposto que o Estado não reconhece os tipos de violência empregadas contra determinados grupos da sociedade como sendo diferentes de outra, por exemplo, não reconhece o femícidio - violência contra o gênero feminino que leva a morte, apenas por serem mulheres -  e nem a homofobia como sendo violência típicas que levam não somente a agressão do público LGBT, como sua morte apenas pela sua existência.

Criando dessa forma um discurso equivocado de igualdade que é falseado, pois o temor igual é apenas para aqueles que não quebram as normas sexuais estabelecidas por detentores de poder. Como exemplo disso podemos citar a denúncia feita pelo Fórum LGBT a respeito da ação policial que ocorreu no dia 05 de Março, no KS Bar, localizado na Compensa II, onde policiais chegaram ao local chamando-o de "Bar da Machuda", uma referencia direta ao público do local em uma abordagem truculenta e lesbofóbica, estes agentes derramaram cervejas, jogaram spray de pimenta no rosto das frequentadoras do bar levando ao público local questionar e intervir na ação, o que gerou mais tumulto levando a prisão de 4 pessoas, que permaneceram mais de um hora enclausuradas no caminhão.

Fonte: Sebastiana

Essa peserguição homófobica institucionalizada, se repete em diversas abordagens pelo país a fora, com casos de mulheres sendo espancadas por serem lésbicas, travestis sendo presos bem como os descasos como assassinatos movidos por homofobia, só no ano passado 13 homossexuais foram mortos.


sábado, 8 de março de 2014

Carta Para a População do Rio de Janeiro


Sobre a greve dos garis e agentes de preparo de alimentos, após 6 dias de paralisação, queremos esclarecer o seguinte:

1- A culpa da greve é do prefeito Eduardo Paes, do presidente da COMLURB e do presidente do Sindicato que não vem representando a nossa categoria.

2- Sofremos há muito tempo com péssimas condições de trabalho, banheiros insalubres, não temos equipamentos de segurança adequados, e baixos salários. A situação é tão absurda que no café servido pela COMLURB já encontramos baratas no pão e leite estragado. Há ainda assedio moral contra os trabalhadores. Estamos sendo coagidos a realizar um trabalho.

3- A direção do sindicato abandonou a pauta de reivindicação da categoria quando aceitou as imposições do Prefeito Eduardo Paes sem o consentimento dos trabalhadores trazendo indignação dentro de toda a categoria aonde se iniciou o processo da greve.

4- A direção do sindicato traiu a categoria também quando recuou da greve de advertência de um dia no dia 1º de março, mostrando que não está ao lado da categoria. O maior absurdo é que isso ocorreu em meio ao nosso dissídio e sem que os advogados do sindicato e a estrutura de nossa entidade fosse colocada a serviço de nossa luta.

5- As informações mostradas na imprensa, com base nas informações da prefeitura e do sindicato, não são verdadeiras. Não são apenas 300 garis que estão em greve. A ampla maioria dos trabalhadores não está realizando as suas funções, mesmo que alguns estejam se apresentando em suas gerencias em função da pressão e das ameaças sofridas por parte dos gerentes. O acumulo de lixo na cidade revela a ampla adesão de nossa greve.

6- Os transtornos criados em função do acumulo do lixo na cidade, são de única e exclusiva responsabilidade do prefeito Eduardo Paes e do presidente da COMLURB que se negam a negociar e atender nossas reivindicações. São eles os que devem ser cobrados por toda essa situação. Nos só queremos dignidade em nosso trabalho essa é nossa única motivação.

7- Repudiamos a criminalização de nosso movimento e a tentativa de nos intimidar por meio de demissões de decisões da justiça.

8- Pedimos apoio e solidariedade de toda a população do Rio de Janeiro, dos sindicatos comprometidos com os trabalhadores, parlamentares que atuam nas mobilizações e todos os que desejem nos ajudar a que a greve consiga uma vitória.

Rio de Janeiro, 06/03/2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

Torturadas, Estupradas e Assassinadas – As Mulheres e a Ditadura


O dia 08 de Março é um dia importante tanto para relembramos às lutas travadas pelas mulheres, bem como para realizar a chamada para luta feminista.

Nas fábricas, nas escolas, em casa e no escritório, os espaços masculinos ainda são predominantes, impondo valores e estruturando métodos masculinos, nos sujeitado a uma ordem estabelecida por uma cultura patriarcal, do mesmo modo que o capital procurar transformar nossa condição em mecanismos de exploração, a luta feminista é a saída para rompimento com essa sociedade patriarcal, nem amo e nem patrão, mulheres livres apenas.

Para tanto a luta feminina se travou ao longo da sociedade, por muitas vezes, sendo colocada em segundo plano, quando na verdade tratava-se de protagonistas pela emancipação social, de Louise Michel a Maria Lacerda de Moura, de Maria Célia a Maria da Penha, bem como diversas mulheres que arriscaram tudo para romper com todas as formas de opressão.

A luta feminina contra a ditadura foi estabelecidas por diversas companheiras que enfrentaram de frente os aparelhos repressores do Estado, estiveram em todos os tipos de frente de luta, da propaganda a informação, do abastecimento a luta armada, arriscando suas vidas por um projeto de sociedade livre, essas mulheres foram heroínas que combateram de frente as forças fascistas do Estado Brasileiro, hoje, 50 anos desde que o golpe militar foi estabelecido na sociedade brasileira, ainda vemos ações fascistas e opressoras em nossa sociedade. Do mesmo modo há mulheres lutando por uma sociedade emancipada, do mesmo modo a luta feminista permanece firme com companheiras que cotidianamente arriscam suas vidas em prol de uma sociedade livre.

A CAAM nesse dia 08 de Março busca traze algumas das trajetórias de algumas companheiras vítimas da ditadura que ousaram lutar contra uma ditadura estabelecida, que como milhões de mulheres foram torturadas, estupradas e assassinadas por militares.

Alceri Maria Gomes Da Silva (1943 – 1973)



A companheira Alceri era militante do movimento operário, em 1967 informou a sua família que iria para São Paulo para lutar contra o Regime Militar. Depoimentos dos presos políticos denunciou o assassinato da companheira por agentes da Operação Bandeirantes (Oban), chefiada pelo capitão Mauricio Lopes Lima. O corpo da companheira nunca  pode ser resgatado. De acordo com o laudo da necropsia  assinado pelo médico legista João Pagenotto e Paulo Augusto Queiroz Rocha,  duas balas atingiram o braço e o peito, enquanto outras duas penetraram  pelas costas, alcançando a coluna.






Heleny Ferreita Telles Guaribi (1941-1971)



Heleny trabalhou trabalhou com teatro boa parte de sua vida, fazendo inúmeros cursos, inclusive em Berlim. Foi contratada pela prefeitura de Santo André para dirigir o grupo de teatro da cidade, onde desenvolveu inúmero trabalhos culturais, com o AI-5 teve seu trabalho interrompido. Foi presa em 1970, por sua militância na VPR. Heleny foi torturada pela Operação Bandeirante (DOI-Codi/SP) pelos capitães Albernaz e Homero. Ficou internada no Hospital Militar dois dias, em razão de hemorragia provocada pelos espancamentos, até ser transferida para o Dops/SP e depois para o Presídio Tiradentes.

Solta em abril de 1971, a militante preparava-se para deixar o país quando, três meses depois, em 12 de julho, foi presa no Rio de Janeiro por agentes do DOI-Codi/RJ, juntamente com Paulo de Tarso Celestino da Silva, da ALN.

Seus familiares e advogados fizeram buscas persistentes por todos os órgãos de segurança. Um brigadeiro chegou a confidenciar a uma amiga de parentes de Heleny ter visto o nome dela numa lista de presos da Aeronáutica. Apesar do silêncio e da negativa sistemática das autoridades, as provas acerca da prisão e do desaparecimento dos dois militantes foram sendo coletadas. Inês Etienne Romeu, em seu relatório de prisão, testemunhou que, durante o período em que esteve sequestrada no sítio clandestino em Petrópolis (RJ), conhecido como “Casa da Morte”, ali estiveram, no mês de julho de 1971, dentre outros desaparecidos, Walter Ribeiro Novaes, Paulo de Tarso e uma moça, que acredita ser Heleny. Lá, ela foi torturada durante três dias, inclusive com choques elétricos na vagina.


Fonte: Direito a Memoria e A verdade: Luta, substantivo feminino. Tatiana Melino – São Paulo. Editora Caros Amigos. 2010.

08 de Março - Dia Internacional da Mulher - 1964 Nunca Mais




JANA MORONI BARROSO

Cursava a Faculdade de Biologia da UFRJ quando ingressou na luta. Era uma das responsáveis pela imprensa clandestina do então revolucionário Partido Comunista do Brasil, no Rio de Janeiro. Combateu na Guerrilha do Araguaia.

Em abril de 1971, mudou-se para a localidade de Metade, no sul do Pará. Nessa região, além do trabalho da roça e da caça, foi professora primária. Casou-se com Nelson Lima Piauhy Dourado (também combatente do Araguaia). Era combatente do Descamento A.

Tombou em combate em janeiro de 1974, após ataque das Forças Armadas, quando estava em companhia de Maria Célia Corrêa e Nelson Piauhy Dourado. Segundo depoimentos colhidos por sua mãe, Jana foi presa e levada para Bacaba, localidade às margens da Transamazônica onde foi construído um centro de torturas das Forças Armadas.

domingo, 2 de março de 2014

Ditadura Nunca Mais


Dia 31 de Março de 1964, um golpe arquitetado por foças reacionárias e conservadoras tomou conta do país, por um medo impulsionado por uma falsa ameaça socialista, nesse dia os movimentos sociais, estudantis e sindicais foram declarados inimigos do Estado, milhares de pessoas foram perseguidas e assassinadas, uma aura de medo e apreensão perpetuava-se nas ruas da cidade e no campo, pensando nessa relação, a Coalizão Anticapitalista e Anarquista de Manaus através do blog pretende publicar diversas matérias relacionadas ao período, para que não esqueçamos as atrocidades realizadas contra mulheres e homens durante esse período, para não esquecer os torturadores que saíram impunes.