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domingo, 29 de dezembro de 2013

Panfleto






 Panfleto

Desvios e Estado de Exceção


Existe uma questão recorrente para @s anarquistas em nossa atual conjuntura, se no inicio do século XX a maior cobrança era em relação à organização, atualmente as perguntas nos vêm na seguinte forma, se derrubamos o Estado, “de que forma iremos continuar vivendo em sociedade sem o Estado”. Estranhamente que quando essa pergunta surge, outra questão deveria ser relacionada, “precisamos de Estado para viver em sociedade?”

Esse tipo de organização que conhecemos com Estado Nação, tem pouco mais de 300 anos, se formos mais radicais, os mecanismos estatais da sociedade moderna que conhecemos agora tem pouco mais de 100 anos, apesar de ser a mesma estrutura autoritária o Estado se transforma ao longo dos anos. No entanto, o Estado não é uma coisa amorfa, que paira no ar sobre nossas cabeças, não é uma entidade espiritual que rege nossas vidas, o Estado é um conjunto de instituições materiais que ordenam e impõe um tipo de organização, assim o Estado Moderno impõe um tipo de organização capitalista, que é gerido pela classe burguesa. A classe burguesa na modernidade se torna uma classe eclética, divididas entre aqueles que exploram em nível local e aqueles que exploram em nível mundial.

No entanto, essa forma de Estado Capitalista, poderia ser substituída por outra forma de Estado? Então não precisaríamos derrubar o Estado, errado, não há como substituir o Estado por outro tipo de Estado, pois ele refere-se a um tipo de organização autoritária e hierarquizada, pautada por uma burocracia instrumental, que rege as relações das coisas, a derrocada do capital é apenas parte do processo, se não derrubamos o Estado, se não o povo não for empoderado politicamente e socialmente estaremos fadados a retomada do capital, pois este procura adequar-se ao que for necessário para sua sobrevivência.

A propriedade é um roubo, (PROUDOHN), o Estado é o violentador da vítima desse roubo, ele que permite que esse roubo, essa usurpação de direitos aconteça e mantêm todos o que são contrários aos seus ideais na marginalidade, por isso não se trata de Estado de Exceção, pois isso seria afirma que existe uma Estado de Direitos que pode ocorrer, mas isso não existe, pois essa Exceção é regra dentro das condições de um Estado Capitalista, mais ainda dentro de uma sociedade capitalista, isso significa afirmar que o exploração, o autoritarismo e a miséria são condições essenciais para o desenvolvimento dessa organização capitalista.
Dessa maneira, o que acompanhamos nos últimos meses, na ultima semana, as injustiças sociais que acompanhamos diariamente não são consequências de uma entidade supraestrutural, mas de pessoas que estão mantendo em funcionamento um tipo de Estado baseado na exploração das pessoas, para que isso ocorre sem que tudo não se inverta se faz necessária uma ideologia que permita um sentido na miséria humana.

Essa ideologia é transmitida por conjunto de legislação que normaliza essas injustiças, através de uma teoria punitiva e “compensatória”, que não rege nada, que desconhece a humanização, que apenas verifica o que esta dentro da normatização, essa normas regem o tipo de educação, o tipo de economia, o tipo de ética social a ser estabelecida entre os sujeitos, e consequentemente rege as formas de comunicação dentro dessa sociedade, pois comunicar-se é parte também do controle social exercido sobre as pessoas.

Ao comunicarmos estamos trocando e possibilitando novas perspectivas de mundo, alternativas, isso também é regido por esse mesmo Estado, não a toa que o direito a comunicação em massa é uma concessão dada a empresas especializadas em comunicar, informar e reproduzir os sentidos de uma sociedade de consumo.

Assim ao analisamos o termo “Estado de Exceção”, na verdade estamos analisados a regularidade autoritárias do Estado Moderno, essa estrutura só se organiza dessa forma em prol da própria acumulação do capital, os subsídios cedidos aos cidadãos são apenas investimentos para serem retomados em outro momento histórico. Não existe exceção para os instrumentos políticos estatais, existe uma ordem a ser seguida, mesmo que parece caótica.

Os “desvios” na verdade são descobertas expostas pelo próprio sistema, em uma tentativa de adaptar-se a um contexto global de ação, visando o fluxo contínuo do capital, a cidade de organiza dessa maneira e assim desejam que nossa vida se organize dessa maneira categórica em prol ao acúmulo.

Ser profissional é estar disciplinado sob um conjunto de regras e valores que estão estabelecidos por uma legislação, regulamentada por uma justiça verticalizada a partir do núcleo produtor do Estado, falar do Estado em si é falar de uma estrutura vasta e complexa, composta por diversos agentes e instituições concatenadas entre si, estabelecidas por uma lógica, uma única lógica regida pelo capital.

Isso significa que todo conjunto abaixo desta lógica deve se adequar ou será aniquilado, isso pode ser visto com a dificuldade em que esse tipo de organização têm em lidar com as diferenças culturais que se encontram abaixo de sua asas.

Recentemente noticiou-se nos principais meios de comunicação um conflito no sul do amazonas, tendo como etnia Thahirim como sendo acusada de ter assassinado três homens na estrada, desencadeando na cidade protestos e um discurso de ódio contra indígenas, esse ódio não surge da noite para o dia, esse sentimento é uma construção de anos de “exceção” políticas voltadas a grupos étnicos e para que a própria população se conscientize a respeito do significado de ser indígena.

Esse exemplo é apenas um dos extremos que se chega dentro de uma lógica autoritária imposta pelo Estado, onde este impõe não reconhece no indígena um agente dentro do sistema, sendo marginalizado e nesse caso sendo ameaçado de extinção, por conta de boatos.

O mesmo ocorre na construção de políticas para as mulheres, esse subsídio estatal visa na verdade aglomerar as mulheres dentro de um mercado de troca econômicas e simbólicas, dando concessões limitadas a pautas femininas que são essenciais, que envolvem a saúde feminina, liberdade sexual e reprodução de existência, mas que o Estado e diversos outros setores apenas têm como uma questão secundária a ser resolvida, tanto que casos de assédio moral e sexual se reproduzem dentro do seio das instituições como sendo “desvios”.

O tipo de policiamento desse Estado reflete objetivamente as condições impostas por essa lógica, servir e proteger a ordem significa proteger os direitos burgueses e a propriedade privada, enquanto essa lógica for seguida os policiais não estarão em comportamento “desviado”, mas seguindo a norma dessa lógica capitalista desumanizada.

O ser humano não se encontra dentro dessa lógica capitalista, ele é consequência da troca de mercadoria, o humano é coisificado e transformado em mercadoria e se tornando um objeto de valor desvalorizado dentro do campo econômico.

As relações brutalizadas são instrumentalizadas dentro do Estado, que legaliza e normatiza a violação humana e não vai adiantar pensa em um Estado mais Humano, pois este ainda se fundamentará no ideal liberal de garantia da propriedade privada. Se faz necessário superar essa estrutura e construir uma relação social mais compreensiva, construindo para além do Estado e do Capital.

Tendo em mente que essa transformação cultural deve ocorrer aliado ideal não somente socialista, mas feminista e anticapitalista. A luta feminista nos apresenta uma possibilidade única de transmutação de valor , o empoderamento da lógica feminista desconstrói nossa relação com a humanidade, para tanto a frase “a revolução necessita ser feminista” não é apenas um jargão, mas um ideal de luta, bem como lidar com os diferentes povos e etnias nos ensina que alternativas de existência são possíveis e efetivas tanto na relação entre os seres humanos, como com a natureza.

 Nesse sentido nossa proposta é de transformação total das relações estabelecidas fora do Estado, pois a vida livre só é possível fora dessas estruturas autoritárias, o ideal libertário é transfigurado em uma luta necessária antiautoritária, antimachista, e anticapitalista, essa nossa negação não é pautada em um ideal, mas a partir de uma análise da realidade que nos cerca.

sábado, 28 de dezembro de 2013

O estado não somos nós e nós não o legitimaremos!

        O Estado nasce com a auto-institucionalização das condições de poder, é a forma que uma elite encontrou para se aproveitar permanentemente de uma população. É naturalmente violento, pois a massa nunca entregou de fato, sua liberdade a uma entidade voluntariamente, essa liberdade foi usurpada. Dessa forma a falsa democracia representativa nos foi imposta violentamente, pois nunca foi questionado se queríamos entregar a nossa liberdade a um pequeno grupo de pessoas que nada sabem sobre as mais diversificadas realidades.
O estado monopolista da violência, nos instala o medo, o medo de ataques externos e internos, e com esse pretexto, fazem-nos acreditar em uma falsa segurança, onde diariamente, ele agride de forma brutal àqueles que deveria resguardar. Através da violência afirma a si próprio na posse do poder permanentemente, como criador da ordem. O estado é nosso maior opressor, apenas ele com imposição de impostos pode aumentar seu poder bélico, com alistamento obrigatório pode criar grandes exércitos, apenas o estado tem capacidade para fazer grandes guerras, não a toa o seculo XX é conhecido como seculo das duas grandes guerras e dos grandes estados nacionais.
O estado é legitimado através do sistema eleitoral, assim consolidando sua força, a "democracia representativa" limitou nossa participação política, ao ato de depositar nas urnas, esporadicamente, nossos desejos por mudanças. Mas essa crença no sistema eleitoral nos deixam cada vez mais distantes de uma verdadeira transformação social, transformação essa que é prometida a cada campanha eleitoral, através da grande mídia, nos fazendo acreditar ser impossível uma outra forma de organização.

         Os partidos eleitoreiros de "esquerda", categorizam o problema conjuntural, como de mera ordem individual, de caráter, matem o mesmo discurso reformista, de transformação por via eleitoral e do estado, como se politica só se fizesse em época de eleição, tais discursos por "transformação sociais", nada contribuem por um bem estar geral e sim para manutenção da ordem vigente . Reafirmam a representatividade burguesa, a dependência do estado, querem apenas a manutenção de uma sociedade passiva e apática, não estimulam a organização popular e a ação direta.
Nos socialistas libertários nos opomos a estes discursos que visam canalizar a luta popular para a via eleitoral, assim como nos opomos ao voto obrigatório, pois não acreditamos em reais transformações através de eleições, o ato de votar condena os movimentos sociais a eterna dependência parlamentar.  Achamos fundamental pautar a construção de uma nova sociedade baseada na autogestão econômica, autonomia, apoio mútuo, ação direta, anti autoritarismo, acreditamos na democracia direta e participativa onde a massa participa de forma direta das decisões sociais, através de associações, assembleias e fóruns, apenas nós nos representamos e sabemos o que responde nossas demandas.

Jana Azevedo
Arleson Oliveira

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Coletivo Feminista Baré


O Coletivo Feminista Baré, continua seus ciclos de estudos, dessa vez com a temática, Saúde Feminina, os encontro são realizados todos os sábados, na sede do DCE-UFAM, rua Joaquim Nabuco, ao lado da Arquidiocese de Manaus, em Frente ao Grupo Simões.

O Tema do próximo sábado, 28 de Janeiro, trata-se do Parto Humanizado, sabe-se que violência obstetrica atinge um número significativo das mulheres, onde um procedimentos extremamente arcaicos e muitas vezes desnecessários são realizados por pura rotina. O debate desse sábado visa trazer a luz esses problema de saúde pública que necessita ser discutido.

 Coletivo Feminista Baré

No II Ciclo de Estudos do Coletivo Feminista Baré, continuaremos com o debate sobre a saúde da mulher, dessa vez no tema do parto humanizado. Compareçam e participem do debate.

link para os textos do debate: 

https://drive.google.com/folderview?id=0BwwLtjPCD9LeNzE1ajZqLXJQWkU&usp=sharing

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Declaração do IV Nordeste das Organizações Anarquistas Especifistas

Nos dias 14, 15 e 16 de Novembro, ocorreu em Fortaleza, Ceara o IV Encontro Nordeste das Organizações Anarquistas Especificas, contando com a presença das organizações: Coletivo Anarquistas Ademir Fernando (CAAF) da Bahia, Coletivo Anarquista Núcleo Negro (CANN) de Pernambuco, Coletivo Anarquistas Zumbi dos Palmares (CAZP) de Alagoas , Organização Resistência Libertária (ORL) do Ceará e o Núcleo Anarquistas Resistência Cabana (NARC).

O Encontro possibilitou uma reflexão voltada as experiencias d@s diver@s companheir@s que trocaram reflexões a respeito das explorações sociais que cada região passa, bem como uma análise sobre a herança deixada pelo coronelismo que aprofunda as explorações sociais sobre a população do nordeste e do norte. A presença do NARC, também nos indica que posicionamento do norte se faz aliado com a região nordeste, bem como trazendo as especificidades referentes a nossa região, o Núcleo Anarquista de Resisência Cabana, que teve seu evento de fundação recente, revigora um espírito de organização na região norte, região esta onde uma população de diversas etnias se encontram em processo de extermínio e de opressão aprofundados pelo capital.

Do encontro uma declaração foi construída que de modo brilhante concatena as relações estruturais e subjetivas que perpassam as condições gerais no país e no mundo, notadamente o espírito internacionalista se fez presente no encontro, terminando com as palavras

Lutar, Criar, Poder Popular

Vida Longa ao Anarquismo desde o Norte/Nordeste


Segue em o link Organização Resistência Libertária onde pode ser encontrada a declaração

 Organização Resistência Libertária

Feliz Ano Novo



Liga Libertária

 O Coletivo Liga Libertária tem como objetivos aprofundar os estudos dentro do pensamento libertário, bem como trazer reflexões a respeito da construção de uma sociedade socialista libertária. Recentemente sugerido por companheir@s, vale a pena acompanhar as publicações.

Como artigo inicial pode-se acompanhar "Luta de Classe ou Ódio entre as Classes?

 Liga Libertária



http://www.ligalibertaria.org/

A luta contra o conservadorismo

O pensamento conservador na região amazônica é evidente em todos os campo sociais, essa recorrência se estabelece tanto na construção de uma mídia tendenciosa, como na reprodução de preconceitos, se estabelecendo dessa maneira na vida diária dos habitantes de nossa região um consenso conversador  e altamente tendencioso, que se é estabelecida pela falta de reconhecimento do outro.

Ao afirmar isso quero demonstrar que essa base de estrutura social conservadora só tende a contribuir para o processo de exploração e degradação humana, pois o conservador não é um monstro, mas um ser humano que se posiciona em favor da situação, consequentemente ele não vê fora de seu modo de vida possibilidades de existência, fora de seu modo de vida o conservador reproduz apenas preconceitos e discriminação.

Entendo como base estrutural conservadora o conjunto de regras subjetivas promovidas por agentes/atores sociais tendo como núcleo central de sentido uma conformação das atuais condições de existência como sendo a única possibilidade efetiva de viver em sociedade, ou seja, pessoas que não acreditam que possa existir outras formas além do capitalismo.

A luta contra esse pensamento perpassa também uma luta por direitos sociais a serem conquistados dentro de um campo efetivo de ação, onde a pessoa humana possa ser reconhecida em sua totalidade e não apenas através de um número social atribuído dentro de um lógica burocratizada. Esse pensamento conservador se estrutura nas instituições estatais, pois estas apresenta as condições necessárias de perpetuação da autoridade, na figura de médicos, professores, policiais, gestores, diretores, superintendente, juiz entre outros que compõe uma posição hierárquica dentro da sociedade que não contribuem para real transformação social, mas pelo contrário procuram aprofundar as injustiças sociais.

Nesse caso se utilizam do discurso hegemônico para executar uma justiça individual ignorando a pessoas que sofrem e estão marginalizadas por conta desse discurso. A mídia contribui deveras para a difusão desse pensamento ao se colocar como um instrumento neutro dentro da sociedade, quando se propõe nessa posição ela escolhe na verdade a manutenção da ordem vigente, daqueles que acreditam ter poder. Na construção de uma sociedade libertária se faz necessário também alternativas midiáticas de ação social e o que falo não é nada novo, mas acrescentaria que se faz necessário instrumentos midiáticos de contraposição a esse tipo de conservadorismo, para que o germe desse pensamento não seja reproduzido nas fileiras libertárias.

No entanto, a mídia em si é apenas parte do problema, há necessidade que as intervenções e os estudos libertários possam ser uma prática cotidiana, bem como uma auto reflexão na construção de um pensamento libertário efetivo, nossa luta dever ser pelos corações de um povo sofrido que é bombardeado constantemente por ideias de que não há saídas, para tanto a construção dessas saídas se dão na destruição dos muros que nos cercam, quer sejam em ambientes particulares como públicos.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Os perigos de um Pensamento colonizador nos movimentos sociais.

A constituição do estado moderno perpassa por diversas condições para sua estruturação, para tanto os limites territórios aliados há um dispositivo jurídico que legitima sua ação dentro desse território determinado é ponto essencial para o desenvolvimento e perpetuação de um modo capitalista de produção.

Consequentemente essa divisão sociopolítica acaba constituindo uma diferenciação entre o nativo e o estrangeiro, onde há o estrangeiro bem vindo, que se caracterizam naqueles que detém sobre si poder legitimado do Estado e do capital, esses estrangeiros fazem parte da lógica de produção e reprodução desse Estado Moderno, consequentemente essa figura não é só bem vinda como também é beneficiada pela sua presença, isso ocorre em condição microssocial e macrossocial, quando vemos o jargão “isso é para inglês ver”, ou quando tratamos bem um estrangeiro europeu.

 Há também o estrangeiro que não é bem vindo, que marginalizado se apresenta como sendo o imigrante, o invasor, aquele que não devia estar aqui, que se encontra dentro de um gradual estado de risco, de afastamento e de esquecimento. A esses estrangeiros nossa sociedade reserva o trabalho superexplorado, ilegitimado, sua presença é tida como perigosa e seu local é no gueto, nos becos, longe dos olhos das pessoas.

Esse sentimento xenofóbico que parece ser naturalizado em nossa cidade é consequência também de uma lógica de diferenciação entre os daqui e os de lá, o outro sendo colocado em segundo plano, destituído de direitos e de reconhecimento social.

Essa distinção se é perpetuada tanto por condições de ordem econômica e sociais, como por questões subjetivas inseridas por uma educação colonial, que tenta perpetuar uma espécie de identidade nacional, que une um povo ou nações sob ideais comuns que definem um sujeito a partir de características culturais, por exemplo, o que diferencia um trabalhador brasileiro e de um trabalhador argentino? O que diferencia uma mulher brasileira e de uma mulher haitiana essa estrutura estabelecida pelo capital? Em primeiro momento não se diferenciam em nada, mas quando nos aproximamos e verificamos a formas de tratamento para um@ ou outr@, podemos observar que ao estrangeiro incomodo lhe é imposto uma pesada carga de desconsideração de identidade social.

Suas práticas culturais, religiosas, sociais são estranhas e lhe é negado o direito de ser como se é, passa-se a excluir a possibilidade d@ Outr@ se tornar companheir@ de luta, não lhe dando crédito na possibilidade de construção de alternativas sociais.

A exploração e expropriação que o capital realiza sobre os sujeitos são inerentes a tod@s, no entanto, o imigrante se encontra em condição de marginalidade acentuada e em constante risco de vida, por conta dessa perpetuação de preconceitos que tem como referencia essa identidade nacional.


A ideia de superação desse nacionalismo é algo que se faz subjacente na luta por emancipação humana, nos ideais socialistas e libertários. Têm em seu entendimento que o capital não discrimina trabalhador, mas que explorar de qualquer modo a força de trabalho independente de sua nacionalidade, mais ainda aqueles quem condição da marginalização social.

Se analisarmos essencialmente a palavra imigrante já subjaz uma condição valorativa de marginalização em detrimento a palavra estrangeiro, que não apresenta essa mesma conotação, a referencia nos jornais a imigrantes são referencias a sujeitos em condições de risco social e discriminação, a parcela conservadora que compõe a sociedade utiliza desses mecanismos para influenciar na construção de uma falsa necessidade de que se faz necessário o controle das fronteiras e do transito das pessoas em um determinado território.
Esse comportamento se é perpetuado a partir de estruturas colonizadoras que promovem um sentimento de nacionalismo, criando uma verdadeira barreira ente os daqui e os de lá, não se trata de perspectiva, mas de um efetivo sistema que sectáriza a sociedade impendido de ouvir o outro que é diferente.

A crença desse nacionalismo perpassou inclusive diversos ramos socialistas por um tempo durante o século XX, a necessidade de defender o mercado nacional ou a indústria nacional, acaba reforçando a distinção entre nativo e estrangeiro, quando na verdade deveria superar a questão do capital não importando a nacionalidade. Esse sentimento de nacionalismo se mostrou historicamente nocivo e prejudicial principalmente para uma proposta de superação de capital e de emancipação humana. Assim como tivemos alguns ramos socialistas que mantiveram o ideal internacionalista como proposta de ação social.
Cabe refletir que esse comportamento xenofóbico seria combatido em qualquer ambiente libertário e internacionalista, mas cabe ressaltar esse sentimento de baseia em práticas colonizadoras, de imposição de um tipo de lógica e compreensão de mundo, pautada em um sentimento de nacionalismo que se constrói para se assumir uma posição de poder em relação a outro.

Os protestos de Junho de 2013, no Brasil, esse sentimento de nacionalismo veio à tona, tanto perpetuado por uma estrutura midiática como por influência de um conjunto de instituições conservadoras (escola, empresas, igrejas) que reforçam esse pensamento colonizado e nacionalista, que nos mostra que há uma disputa e uma crítica necessária a ser realizada de um pensamento perigoso que cerca os movimentos sociais.

Tendo em vista que falar de movimentos sociais é uma categorização que acaba generalizando um conjunto de sujeitos que estão em disputa por direitos diferenciados, reconhecimento e afirmação de identidade, transformando um conjunto heterogêneo de sujeitos coletivos com práticas e metodologias distintas, sob essa categoria, se faz necessária essa generalização se faz na presente argumentação, apesar de ser apenas um tipo de interpretação possível.

Nós do movimento social necessitamos realizar uma crítica em relação a esse sentimento subjacente colonizador que aparece em falas negligentes de sujeitos pertencentes a grupos em atividades ou com experiência ativista dentro dos movimentos sociais. Ao desconsiderar que em regiões distantes possam existir a possibilidade de feminismo classista, do anarquismo, de um socialismo radical, estar-se colocando estes grupos como sendo o outro e impondo uma lógica colonizadora de um tipo de comportamento militante a ser seguido.

Se assim fizermos estamos apenas reproduzindo outro mecanismo de hierarquização e estamos usurpando a possibilidade de empoderamento que os sujeitos de sua história possuem, impor uma maneira de agir para todos é ignorara própria trajetória pessoal de cada militante. Sabemos que não é dado, mas construído historicamente, dessa maneira não podemos entender a trajetórias de grupo como etapas a serem cumpridas, que a partir de um formula mágica de militância se ira conseguir os mesmo resultados de outras regiões.

Seria admitir que os mecanismos do capitalismo fossem iguais em todas as regiões do planeta, e sabemos que não o é, nem mesmo existe uma classe burguesa universal, do mesmo tipo, em cada região há diferenças e características particulares a serem levadas em conta, por isso apesar de não ser da mesma forma, devo afirmar que existe feminismo no norte, existe anarquismo no norte, esses uma crítica radical afastada do centro da discussão, que são marginalizados e deixados de lado.

Do mesmo modo não se pode negar que acumulo de experiências de luta em outras regiões só tende sofisticar as estratégias de luta e reinjetar uma animo maior em diversos outros grupos. Essa troca social que se faz necessária ser retomada para romper com os perigos do sentimento colonizador.

Em alguns casos esse sentimento pode ser visto em sujeitos que detém um tipo de conhecimento social institucionalizado, que procuram dessa forma reafirmar essa posição como mecanismo de poder em relação a outros sujeitos, reproduzindo dessa maneira o discurso vazio intelectualizado sem prática social alguma.

Retornado a questão do vetor social que necessita ser resgatado dentro dos movimentos libertários, no caso de Manaus, em determinados momentos o pensamento tido como libertário alojou-se dentro de instituições acadêmicas, como a Universidade Federal do Amazonas, como sendo o único local de possibilidade de transformação social e de espaço para essas ideias. Apesar de ser um espaço importante e icônico no que se refere a resistência não pode ser compreendido como único espaço possível de proliferação de ideais libertários, dessa forma, por conta de condições históricas particulares, como repressão a ideias anarquistas e um conservadorismo social instaurado pós ditadura, o anarquismo passou a ser compreendido como alguns apenas como uma teoria, mas sem prática social, liquidando dessa forma o vetor social por muito tempo do anarquismo na cidade de Manaus.

Entendemos que o anarquismo é uma prática e um sistema filosófico de ação social, pautada no antiautoritarismo e na liberdade social, liberdade essa que só pode ser conquistada através de uma transformação social e não somente individual, por isso rompemos com o individualismo que apenas restabelece um ideal liberal e pequeno burguês.  

A apropriação da teoria anarquista é apenas uma parcela, se for um fim em si, em nada estaremos transformando nossa realidade, será apenas um acúmulo teórico vazio e sem sentido, que sejamos um toco no meio do rio difícil de ser arrastado, resistente e que cresce, que de multiplica e altera o curso desse igarapé.

 Essas estruturas colonizadoras que perpassam as relações dentro dessa sociedade só tendem a atomizar os movimentos sociais, retirando destes também o espírito de transformação radical da sociedade. Essas estruturas necessitam serem rompidas, espaços possíveis precisam ser criados, onde não se espera.

Para tanto lutar contra um pensamento colonizador dentro dos movimentos sociais se faz necessário, romper com as estruturas hierárquicas estabelecias objetivamente e subjetivamente dentro de organizações sociais. A horizontalidade necessita ser praticada, bem como a diferenciação dos atores sociais e suas possibilidades. Que possamos junt@s construir lado a lado outras realidade social.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Elimine o sectarismo: por uma cena anarquista e antifascista produtiva e ativa.

A cena anarquista tem adept@s de vários 'tipos', pessoas que participam de alguma contracultura, professor@s, operári@s, enfim, várias pessoas que interessam-se pela destruição do Estado patriarcal, machista, fascista, burguês e opressor. Se fosse possível agrupar em determinada região tod@s @s anarquistas existentes ao redor do mundo, uma revolução, tal qual a espanhola, certamente seria feita. Afinal, temos uma força e um horizonte ao qual buscar que difere d@s outr@s revolucionári@s, queremos não uma reforma, mas a destruição do Estado e do capital, queremos autogestão, autonomia e acima de tudo, a máxima liberdade.
Porém, um problema que é enfrentado dentro do movimento há tempos é o sectarismo, por sectarismo digo a tentativa de eliminar do movimento qualquer um que não se "encaixe num padrão específico", muita das vezes são atitudes apenas baseadas em pré conceitos sem sequer conhecer a outra pessoa, essas atitudes muitas das vezes passadas por pessoas mais antigas no movimento são deturpatórias, é como se estivessem traçando um perfil do revolucionário ideal, o que pode ou não fazer, seguir, crer ou qualquer coisa do gênero. É claro que se deve manter uma postura coerente com o que se acredita, mas se a pessoa tem essa postura, qualquer tentativa de boicotar ou eliminar da luta por que a acha indigna de ser anarquista é ridícula e só faz sectarizar um movimento que é muito mais que o ego de um ou outro.
Esse tipo de atitude sectária não leva a nada, apenas a desmobilização, sectarização da luta, tornando a fraca por coisas como esta. José Oiticica fala em seu livro Contra o Sectarismo sobre isso: "O verdadeiro anarquista, penso eu, é aquele que se libertou totalmente do preconceito sectarista, colabora em todos os grupos, atua em qualquer tendência. Mais ainda, coopera com os não-anarquistas onde quer que a ação deles incremente a oposição revolucionária. Assim, é anti-clerical com os anti-clericais; é democrático na defesa dos princípios liberais contra os reacionários; está com os bolchevistas, sempre que estes reivindiquem direitos, reforça a ala antimilitarista, ainda que os antimilitaristas sejam burgueses; colabora com a escola moderna racionalista, conquanto não seja senão reformista; anima os teósofos na propaganda fraternista, os vegetarianos na extirpação dos vícios, o próprio Estado Liberal contra o imperialismo vaticanista. Não proceder assim, seria confinar-se ao sectarismo e negar, nos atos, a doutrina anarquista, essencialmente anti-sectária."
A luta é todo dia, não se pode deixar levar por atitudes que possam desmobiliza-la, não importa raça, cor, credo, classe, grupo, sexo, gênero, se você acredita que podemos mudar esse mundo e quer lutar por isso saiba que não estará só. Abra seus olhos, sua/seu maior irmã/irmão de luta pode estar ao seu lado lutando também e você não o percebe por orgulho ou preconceito com @ mesm@.
Somente a destruição do Estado será capaz de nos dar liberdade a qual ansiamos, e ela só será conquistada através da união de tod@s!

Saudações anarquistas/feministas/antifascistas. Ousar lutar, ousar vencer.

Aldeia Maracanã Resiste

24 HORAS DE FOME

Urutau Guajajara completou nessa manhã o ciclo de um dia em cima da árvore dentro da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro. A tropa de choque e os bombeiros impedem que Guajajara, de 64 anos, se alimente e regulam o acesso a água.

Em resposta, manifestantes arremessam alimentos para tentar amenizar as dificuldades de Guajajara, diabético, lá em cima. Numa das tentativas em que o alimento se prendeu a árvore, os bombeiros utilizaram o andaime para pegar a sacola com comida antes que Zé pudesse alcançá-la.

Mesmo assim os ativistas continuam trabalhando em formas de furar o bloqueio dos bombeiros. Mais de 60 pessoas cantam e gritam no cordão de isolamento criado pela Tropa de Choque da PM. Os manifestantes já foram ameaçados de prisão por desacato, caso continuem cantando próximo aos oficiais.


Fonte: Mídia Ninja

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Hoje na Aldeia Maracanã

E novamente a criminalização dos movimentos sociais se faz diante a política truculenta e predatória de Sérgio Cabral. Neste exato momento, apenas um índio ainda resiste em cima de uma árvore diante do avanço policial no cerco criado diante a ocupação dos indígenas da Aldeia Macaranã. Quanto mais a copa se aproxima, a repressão se faz ainda maior. O jornal A Nova Democracia disponibiliza um vídeo mostrando toda a reação dos manifestantes diante dos policiais militares, que reprimem violentamente a reivindicação de um espaço pertencente à Aldeia. Já é a segunda tentativa de desocupação dos indígenas somente este ano. Esta luta já se trava há anos! Reconhece-se aquele espaço como importância política para o movimento indígena, que reivindica-se para se tornar um centro cultural indígena. Contudo, o governo ainda insiste na negação do espaço, obedecendo às exigências da FIFA de transformá-lo em um estacionamento do estádio!  Todo apoio popular é preciso! AVANTE POVO!



Coletivo Feminista Baré Apresenta


domingo, 15 de dezembro de 2013

Anarquismo e Anarquia

ANARQUISMO E ANARQUIA
Errico Malatesta
O anarquismo em suas origens, aspirações, em seus métodos de luta, não está necessariamenteligado a qualquer sistema filosófico.

O anarquismo nasceu da revolta moral contra as injustiças sociais. Quando apareceram homens que se sentiram sufocados pelo ambiente social em que eram obrigados a viver, que sentiram a dor dos demais como se ela fosse a sua própria, e quando estes homens se convenceram de que boa parte do sofrimento humano não é conseqüência inevitável das leis naturais ou sobrenaturais inexoráveis, mas, ao contrário, que deriva de realidades sociais dependentes da vontade humana e que podem ser eliminados pelo esforço humano, abria-se então o caminho que deveria conduzir ao anarquismo. Era necessário encontrar as causas específicas dos males sociais e os meios corretos para destruílas. E quando alguns consideraram que a causa fundamental do mal era a luta entre os homens que resultava no domínio dos vencedores e a opressão e a exploração dos vencidos, e viram que este domínio dos primeiros e esta sujeição dos segundos deram origem à propriedade capitalista e ao Estado, e quando se propuseram derrubar o Estado e a propriedade, nasceu o anarquismo.[1]

Eu prefiro deixar de lado a incerta filosofia e ater-me às definições comuns, que nos dizem que a anarquia é uma forma de vida social em que os homens vivem como irmãos, sem que nenhum possa oprimir e explorar os demais, e em que todos os meios para se chegar ao máximo desenvolvimento moral e material estejam disponíveis para todos. O anarquismo é o método para realizar a anarquia por meio da liberdade e sem governo, ou seja, sem organismos autoritários que, pela força, ainda que seja por bons fins, impõem aos demais sua própria vontade.[2]

A anarquia é a sociedade organizada sem autoridade, compreendendo-se a autoridade como a faculdade de impor a própria vontade. Todavia, também significa o fato inevitável e benéfico de que aquele que melhor compreenda e saiba fazer uma coisa, consiga fazer aceitar mais facilmente sua opinião, e sirva de guia nesta determinada coisa aos que são menos capazes.

Em nossa opinião, a autoridade não somente não é necessária para a organização social, mas, mais ainda, longe de beneficiá-la vive dela como parasita, impede seu desenvolvimento e extrai vantagens desta organização em benefício especial de uma determinada classe que explora e oprime as demais. Enquanto há harmonia de interesses em uma coletividade, enquanto ninguém deseja e nem tem meios de explorar os demais, não existem traços de autoridade. Quando, ao invés disso, há lutas intestinas e a coletividade se divide em vencedores e vencidos, surge então a autoridade, que é naturalmente usada para a vantagem dos mais fortes e serve para confirmar, perpetuar e fortalecer sua vitória.

Por sustentarmos esta opinião somos anarquistas, e em caso contrário, afirmando que não poderia haver organização sem autoridade, seríamos autoritários. Porque ainda preferimos a autoridade que incomoda e desola a vida, à desorganização, que a torna impossível.[3]

Quantas vezes temos de repetir que não queremos impor nada a ninguém, que não acreditamos ser possível nem desejável beneficiar as pessoas pela força, e que tudo o que queremos é que ninguém nos imponha sua vontade, que ninguém possa estar em posição de impor aos demais uma forma de vida social que não seja livremente aceita?[4] O socialismo – e isso é ainda mais verdadeiro no anarquismo – não pode ser imposto, seja por razões morais de respeito à liberdade, seja pela impossibilidade de aplicar “pela força” um regime
de justiça para todos. Ele não pode ser imposto por uma minoria a uma maioria e também não pode
ser imposto pela maioria a uma ou várias minorias.

E é por isso que somos anarquistas, que desejamos que todos tenham a liberdade “efetiva” de viver como queiram. Isso não é possível sem a expropriação daqueles que detêm atualmente a riqueza social e sem colocar os meios de trabalho à disposição de todos.[5] A base fundamental do método anarquista é a liberdade, e por isso combatemos e continuaremos a combater tudo o que a violenta – liberdade igual para todos – qualquer que seja o regime dominante: monarquia, república ou qualquer outro.[6] Nós, ao contrário, não pretendemos ter a verdade absoluta. Acreditamos que a verdade social, ou seja, o melhor modo de convivência social, não é algo fixo, bom para todos os tempos, universalmente aplicável ou determinável de antemão. Ao invés disso, acreditamos que uma vez assegurada a liberdade, a humanidade avançará, descobrindo e realizando as coisas, gradualmente, com o menor número de comoções e atritos. Por isso, as soluções que propomos deixam sempre a porta aberta a outras soluções distintas e, esperamos, melhores.[7]

Aqueles que analisam minha pergunta: “Como vocês farão para saber de que maneira se orientará, amanhã, sua república?”, opõem-se, por sua vez, colocando o seguinte: “Como vocês sabem de que maneira se orientará seu anarquismo?”. E eles têm razão: são numerosos e extremamente complexos os fatores da história, são tão incertas e indetermináveis as vontades humanas, que ninguém poderia colocar-se seriamente a profetizar o futuro. Mas a diferença que existe entre nós e os republicanos é que nós não queremos cristalizar nosso anarquismo em dogmas e nem impô-lo pela força; será o que puder ser e se desenvolverá à medida que os homens e as instituições tornem-se mais favoráveis à liberdade e à justiça integrais.[8]

Temos em vista o bem de todos, a eliminação de todos os sofrimentos e a generalização de todas as alegrias que possam depender das ações humanas; buscamos a paz e o amor entre todos os homens, uma sociedade nova e melhor, uma humanidade mais digna e feliz. Porém, acreditamos que o bem de todos não pode ser alcançado realmente sem o concurso consciente de todos; acreditamos que não existem fórmulas mágicas capazes de resolver as dificuldades; que não há doutrinas universais e infalíveis que se apliquem a todos os homens e a todas as situações; que não existem homens e partidos providenciais que podem substituir utilmente a vontade dos demais pela sua própria e fazer o bem pela força; pensamos que a vida social toma sempre as formas que resultam do contraste dos interesses materiais e dos ideais daqueles que pensam e reivindicam. E por isso, convocamos a todos a pensar e a reivindicar.[9]

O anarquista é, por definição, aquele que não quer ser oprimido e que não quer ser opressor, aquele que deseja o maior bem-estar, a maior liberdade, o maior desenvolvimento possível para todos os seres humanos.

Suas idéias e suas vontades têm origem no sentimento de simpatia, de amor, de respeito para com a humanidade: um sentimento que deve ser suficientemente forte para fazer com que cada um queira o bem dos outros, assim como quer o seu próprio bem, renunciando as vantagens pessoais cuja obtenção requer o sacrifício dos outros.

Se não fosse assim, por que o anarquista seria inimigo da opressão e não trataria, ao invés disso, de transformar-se em opressor? O anarquista sabe que o indivíduo não pode viver fora da sociedade, na realidade ele nem existiria, como indivíduo humano, senão porque carrega dentro de si os resultados do trabalho de inumeráveis gerações passadas, e aproveita durante toda sua vida a colaboração de seus
contemporâneos.

O anarquista sabe que a atividade de cada um influencia, de maneira direta ou indireta, a vida de todos, e reconhece, portanto, a grande lei da solidariedade que predomina tanto na sociedade como na natureza. E já que quer a liberdade de todos, deve necessariamente querer que a ação desta solidariedade necessária, ao invés de ser imposta e sofrida, inconsciente e involuntária, ao invés de ser deixada à sua própria sorte e ser explorada em vantagem de alguns poucos e em detrimento da maioria, torne-se consciente e voluntária e seja aplicada para o igual benefício de todos.

Ser oprimidos, ser opressores, ou cooperar voluntariamente para o maior bem de todos. Não há nenhuma outra alternativa possível; e os anarquistas estão naturalmente a favor, e não podem não estar, da cooperação livre e voluntária. Não queremos aqui ficar “filosofando” e falando de egoísmo, altruísmo e complicações similares.

Estamos de acordo: todos somos egoístas, todos buscamos nossa satisfação. Porém, o anarquista encontra sua máxima satisfação na luta pelo bem de todos, pela realização de uma sociedade na qual possa ser um irmão entre irmãos, em meio de homens saudáveis, inteligentes, instruídos e felizes. Por outro lado, quem puder adaptar-se, quem estiver satisfeito em viver entre escravos e em obter lucro de seu trabalho não é, e não pode ser, um anarquista.[10]

Para ser anarquista, não basta reconhecer que a anarquia é um lindo ideal – coisa que, ao menos em
teoria, todos reconhecem, incluindo os poderosos, os capitalistas, os policiais e, creio eu, até mesmo
Mussolini. É necessário querer combater para chegar à anarquia, ou ao menos se aproximar dela,
tratando de atenuar o domínio do Estado e do privilégio, e reivindicando sempre mais liberdade e
mais justiça.[11]

Por que somos anarquistas?
Independente de nossas idéias sobre o Estado político e sobre o governo, ou seja, sobre a organização coercitiva da sociedade, que constituem nossa característica específica, e as idéias referentes ao melhor modo de assegurar a todos o livre acesso aos meios de produção e a participação nas boas coisas da vida social, somos anarquistas por um sentimento que é a força motriz de todos os reformadores sociais sinceros, e sem o qual nosso anarquismo seria uma mentira ou um contra-senso.

Este sentimento é o amor para com a humanidade, é o fato de sofrer com sofrimentos dos demais. Se eu como, não posso fazê-lo com gosto se penso que há gente que morre de fome; se compro um brinquedo para minha filha e me sinto muito feliz por sua alegria, minha felicidade logo se amarga ao ver que, diante da vitrine da loja há crianças com os olhos arregalados que se contentariam com um brinquedo que custa apenas algumas moedas, mas que não podem comprá-lo; se me divirto, minha alma se entristece assim que penso que há infelizes companheiros que definham nas prisões; se estudo ou realizo um trabalho que me agrada, sinto uma espécie de remorso ao pensar que há tantas pessoas que têm maior talento que eu e se vêem obrigadas a perder sua vida em tarefas exaustivas, muitas vezes inúteis ou prejudiciais. Claramente, puro egoísmo, mas de um tipo que outros chamam altruísmo – chamem-no como quiserem – e sem o qual, não é possível ser realmente anarquista.

A intolerância frente à opressão, o desejo de ser livre e de poder desenvolver completamente a própria personalidade até o limite, não bastam para fazer de alguém um anarquista. Esta aspiração à liberdade ilimitada, se não for combinada com o amor pelos homens e com o desejo de que todos os demais tenham igual liberdade, pode chegar a criar rebeldes, que, se tiverem força suficiente, se transformarão rapidamente em exploradores e tiranos.[12]

Há indivíduos fortes, inteligentes, apaixonados, com grandes necessidades materiais ou intelectuais que, encontrando-se por acaso entre os oprimidos, querem, a qualquer custo, emancipar-se e não se ofendem em transformar-se em opressores: indivíduos que, sentido-se prisioneiros na sociedade atual, chegam a desprezar e a odiar toda a sociedade, e ao sentir que seria absurdo querer viver fora da coletividade humana, buscam submeter todos os homens e toda a sociedade à sua vontade e à satisfação de seus desejos. Às vezes, quando são pessoas instruídas, consideram-se super-homens. Não se sentem impedidos por escrúpulos, querem “viver suas vidas”. Ridicularizam a revolução e toda aspiração futura, desejam gozar o dia de hoje a qualquer preço, e à custa de quem quer que seja; sacrificariam toda a humanidade por uma hora de “vida intensa” (conforme seus próprios termos). Estes são rebeldes, mas não anarquistas. Têm a mentalidade e os sentimentos de burgueses frustrados e, quando conseguem, transformam-se em burgueses, e não dos menos perigosos. Pode ocorrer algumas vezes que, nas circunstâncias dinâmicas da luta, os encontremos ao nosso lado, mas não podemos, não devemos e nem desejamos ser confundidos com eles. E eles sabem muito bem disso. Contudo, muitos deles gostam de chamar-se anarquistas. É certo – e também deplorável. Nós não podemos impedir ninguém de se chamar do nome que quiser, nem podemos, por outro
lado, abandonar o nome que sucintamente exprime nossas idéias e que nos pertence lógica e historicamente. O que podemos fazer é prevenir qualquer confusão, ou para que ela se reduza ao mínimo possível.[13]

Eu sou anarquista porque me parece que o anarquismo responde melhor que qualquer outro modo de vida social ao meu desejo pelo bem de todos, às minhas aspirações para uma sociedade que concilie a liberdade de todos com a cooperação e o amor entre os homens, e não porque o anarquismo se trate de uma verdade científica e de uma lei natural. Basta-me que não contradiga nenhuma lei conhecida da natureza para considerá-lo possível e lutar para conquistar o apoio necessário para sua realização.[14]

Eu sou comunista (libertário, claramente), estou a favor do acordo e creio que com uma descentralização inteligente e uma troca contínua de informações seria possível chegar à organização das trocas necessárias de produtos e satisfazer as necessidades de todos sem recorrer ao dinheiro, que está certamente carregado de inconvenientes e perigos. Aspiro, como todo bom comunista, a abolição do dinheiro, e como todo bom revolucionário creio que será necessário desarmar a burguesia desvalorizando todos os sinais de riqueza que possam permitir que pessoas vivam sem trabalhar.[15]

Frequentemente, dizemos: “o anarquismo é a abolição do gendarme”, entendendo por gendarme qualquer força armada, qualquer força material a serviço de um homem ou de uma classe para obrigar os demais a fazer o que não querem fazer voluntariamente.

Certamente, esta definição não dá uma idéia nem sequer aproximada do que se entende por anarquia, que é uma sociedade fundada no livre acordo, na qual cada indivíduo pode atingir o máximo desenvolvimento possível, material, moral e intelectual; que encontra na solidariedade social a garantia de sua liberdade e de seu bem-estar. A supressão da coerção física não é suficiente para que se chegue à dignidade de homem livre, para que se aprenda a amar seus semelhantes, a respeitar os direitos dos outros da mesma forma que deseja ter seus próprios direitos respeitados, e para que se recuse tanto a mandar como a obedecer. Alguém pode ser um escravo voluntário por deficiência moral e por falta de confiança em si mesmo, assim como alguém pode ser tirano por maldade ou por inconsciência, quando não encontra resistência adequada. 

Porém, isto não impede que a abolição do gendarme, ou seja, a abolição da violência nas relações sociais, constitua a base, a condição indispensável sem a qual a anarquia não pode florescer e, mais ainda, não pode nem sequer ser concebida.[16]

Visto que todos estes males da sociedade derivam da luta entre os homens, da busca do bem-estar que cada um realiza por sua própria conta e contra todos, queremos corrigir esta situação, substituindo o ódio pelo amor, a competição pela solidariedade, a busca individual do próprio bem-estar pela cooperação fraternal para o bem-estar de todos, a opressão e a imposição pela liberdade, a mentira religiosa e pseudo-científica pela verdade. Portanto:

1) Abolição da propriedade privada da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho – para que ninguém disponha de meios de viver pela exploração do trabalho alheio –, e que todos, assegurados dos meios de produzir e de viver, sejam verdadeiramente independentes e possam associar-se livremente com os demais, por um interesse comum e conforme as simpatias pessoais. 

2) Abolição do governo e de todo poder que faça a lei para impô-la aos outros: portanto, abolição das monarquias, repúblicas, parlamentos, exércitos, polícias, magistraturas e toda instituição que possua meios coercitivos.

3) Organização da vida social por meio das associações livres e das federações de produtores e consumidores, criadas e modificadas segundo a vontade dos membros, guiadas pela ciência e pela experiência, livre de toda obrigação que não emane das necessidades naturais, às quais todos se submetem voluntariamente, quando reconhecem seu caráter inelutável.

4) Garantia dos meios de vida, de desenvolvimento, de bem-estar às crianças e a todos aqueles que são incapazes de suprir suas próprias necessidades.

5) Guerra às religiões e todas as mentiras, ainda que elas se ocultem sob o manto da ciência. Instrução científica para todos, até os níveis mais elevados.

6) Guerra às rivalidades e aos preconceitos patrióticos. Abolição das fronteiras e fraternidade entre todos os povos.

7) Reconstrução da família, de tal forma que ela resulte da prática do amor, liberto de todo laço legal, de toda opressão econômica ou física, de todo preconceito religioso.[17]

Queremos abolir radicalmente a dominação e a exploração do homem pelo homem; queremos que os homens, irmanados por uma solidariedade consciente e desejada, cooperem todos de maneira voluntária para o bem-estar de todos; queremos que a sociedade constitua-se com o objetivo de proporcionar a todos os seres humanos os meios necessários para que alcancem o máximo bem-estar possível, o máximo desenvolvimento moral e material possível; queremos pão, liberdade, amor e ciência para todos.[18]


NOTAS
1. Pensiero e Volontà, 16 de maio de 1925.
2. Pensiero e Volontà, 1 de setembro de 1925.
3. L’Agitazione, 4 de junho de 1897.
4. Umanità Nova, 25 de agosto de 1920.
5. Umanità Nova, 2 de setembro de 1922.
6. Umanità Nova, 27 de abril de 1922.
7. Umanità Nova, 16 de setembro de 1921.
8. Pensiero e Volontà, 15 de maio de 1924.
9. Pensiero e Volontà, 1° de janeiro de 1924.
10. Volontà, 15 de junho de 1913.
11. Pensiero e Volontà, 16 de maio de 1925.
12. Umanità Nova, 16 de setembro de 1922.
13. Volontà, 15 de junho de 1913.
14. Umanità Nova, 27 de abril de 1922.
15. Il Risveglio, 20 de dezembro de 1922.
16. Umanità Nova, 25 de julho de 1920.
17. Il Programma Anarchico, Bologna, 1920.
18. Il Programma Anarchico, Bologna, 1920.
* Compilação: Vernon Richards
* Tradução: Felipe Corrêa

(texto do Modulo 01 da Federação Anarquista do Rio de Janeiro e da Organização Anarquistas Socialismo Libertário)


http://www.farj.org/

http://anarquismosp.org/

I Oficina de Organização Política e Estatutária dos Centros Acadêmicos

Evento ocorrerá na Universidade Federal do Amazonas, no Setor Norte, no Instituto de Ciências Humanas e Letras. Promovido pelo CASSA- Centro Acadêmico de Serviço Social. Entre as pautas a serem debatidas, está o processo de politização do movimento estudantil na Universidade Federal do Amazonas.

A questão nacional como instrumento do fascismo.



A questão nacional se coloca desde o início da história, no primeiro momento, como dilema prático e teórico. Ocatvio Ianni


Nos últimos anos temos acompanhado constantes criticas ao Estado e ao Governo referente às condições de funcionamento dos serviços públicos, para além disso a critica se localiza na organização desses serviços dentro de uma lógica neoliberal que foi estabelecida desde antes de 1992 a partir da política de abertura de mercado proposta pelo presidente Fernando Collor de Mello, estruturando-se na presidência de Fernando Henrique Cardoso e sendo continuada com as políticas de empoderamento econômica instituídas pelas presidências do Partido dos Trabalhadores e aliados.

Ao longo de 21 anos as instituições de serviço público acompanham um processo de sucateamento social, que não poupa nenhuma área de atendimento social, indo da educação pública aos serviços de transporte públicos. Consequentemente, aliado a este processo de sucateamento, há também um aprofundamento do sistema capitalista a partir de uma globalização e a mudança de recursos nacionais para um fluxo de capital internacional ou a internacionalização do capital (IANNI, 2001).

Esse processo não ocorre sem que existam mecanismos de resistência que surgem no seio da sociedade civil, mesmo que supraestrutura do fluxo de capital imponha um processo de globalização ou globalitarização no entendimento de Milton Santos, há um processo de resistência constante das regiões que são deslocadas para fora desse sistema mundo, consequentemente o esfacelamento dos estados nacionais coloca os serviços público em um processo de transmutação, onde o recurso público tende a se tornar capital privado, não a toa os pilares desse modelo de organização nacional vem sendo  questionado constantemente.

O executivo, legislativo, judiciário e os partidos, assim a sociedade civil procura por outros meios compreender a relação do Estado Nacional, não à toa que a questão nacional é recorrente no entendimento dos protestos que tomam conta do Brasil, não à toa o sentido simbólico expresso por um senso comum que perpassa a todos em um misto de reconhecimento e identidade parece se compartilhado pelos manifestantes que não querem ser reconhecidos por partidos, que não querem ser reconhecidos por movimentos sindicais, ou qualquer outra entidade a não ser pátria mãe gentil, colocando em público o descontentamento por diversas questões, deixando de lado a própria história de vários movimentos sociais.

Esse sentimento nacionalista é uma faca de dois gumes, por um lado o sentido semântico da nacionalidade por trazer consigo a possibilidade de agregar diversas pessoas, de constituir um sentimento de solidariedade único que pode se superamos a questão nacional torna-se um sentimento de compreensão das diversidade cultural no mundo, onde todos os seres humanos poderão ser vistos como iguais e diferentes ao mesmo tempo, assim mudarmos de uma vez a proposta estabelecida pelo capitalismo onde necessitamos explorar um irmão para que possamos sobreviver nesse mundo. Por outro lado esse sentimento nacional é também situado por um sentimento de negatividade do outro, onde a união pode descambar na intolerância e ódio pela diferença, de identidade, cultura, sexualidade e de gênero, em prol de uma unidade social inexistente e imposta pela violência contra os povos tradicionais, trabalhadores do campo, operários, homossexuais, povos indígenas, quilombolas e todos que se recusarem tomar parte nessa empreitada nacionalista.

As revoluções na América latina são demarcadas por uma força que estabelece verticalmente a partir das classes dominantes, que são representadas primeiramente a partir da nobreza colonial que se estabelece nos territórios dominados impondo suas regras e ações, em seguida passando por um processo de rompimento com a metrópole em um discurso de independência demarcando certa autonomia e sentimento de independência em volta de um novo tipo de proposta de dominação, quer seja republicana ou monárquica, finalmente procurando situar-se em um democracia representativa, que não altera em nada as estruturas de dominação impostas na sociedade.

A sociedade nacional se forma aos poucos, de modo contraditório, em vais-e-vens, como se estivesse demoradamente saindo do limbo. Paulatinamente, nas terras americanas, os conquistadores vão se tornando nativos, colocam-se em divergência e oposição em face da metrópole, passam a lutar pela pátria. Surgem as inconfidências, insurreições, revoltas, revoluções, nas quais estão presentes nativos, crioulos, nacionais, mestiços, mulatos, índios, negros, espanhóis, portugueses, ingleses, franceses, holandeses e outros. Começam a delinear-se a sociedade, o Estado, a Nação, em torno de uma cidade, região, movimento, líder; ou cidades, regiões, movimentos, líderes.(IANNI, 1987)


Mesmo nas insurreições, insurgências, luta por independência, luta pela república e pelo Estado Moderno, o sangue derramado foi o sangue da população, dos excluídos, do escravo negro e indígena, do trabalhador do campo, do operário, dos pobres e dos loucos, estes estavam sempre sendo utilizados como linha de frente dessas revoluções burguesas, tendo como pano de fundo o nacionalismo como ponto inicial e final de progresso da sociedade.

As revoluções populares se constituíam de modo diferenciado, a partir do descontentamento das populações excluídas dessa estrutura modernizante, passavam a resistir diante das imposições daqueles que detinham o monopólio das instituições do Estado e doo uso da violência, no entanto na maioria dos casos as revoluções acabavam na transmutação de um personalismo social, onde a figura de um salvador despontava do meio da população, levando a uma gama de governos populistas na América latina.

Compreendendo-se isso na maioria dos casos as forcas dominantes procuravam no personalismo da liderança popular realizar a transformação que acreditava ser necessária. A relação entre esse processo e as manifestações que se espalham pelo Brasil se encontra na produção de um patriotismo imposto pela grande mídia, inclusive por entidades especializadas em tratar de produzir mensagens em redes sociais, impulsionando dessa maneira a um ataque personalista, já que na há uma liderança reconhecida pelas instituições associadas ao Estado nos protestos.

Esse ataque personalista é direcionado aos movimentos sociais, aos partidos de esquerda e a presidente Dilma, como sendo figuras antagônicas do povo e da nacionalidade construída, seguida de grupos fascistas e integralistas que encontram na oportunidade do anonimato a possibilidade de difundir um ideal nacional e de união perverso.

Esses grupos políticos que defendem a moral, o bem-estar e o apartidarismo e também políticas de desenvolvimento econômico que deslocam aqueles que são excluídos para um espaço mais distante das políticas sociais, compartilhando entre si um discurso autoritário e antidemocrático. Para tanto, se dizem ser sem partidos, mas escondem relações diretas com o campo de atuação da direita conservadora no Brasil. Excluindo as histórias de entidades que estiveram sempre ao lado da população menos favorecida e que não tem acesso aos serviços públicos.

Assim repudiamos toda forma que possa gerar a opressão e implodir o debate dos movimentos sociais dentro da sociedade, iremos lutar pela democracia direta, liberdade e pela emancipação humana desse sistema capitalista. Haja visto que essa mesma classe dominante já procurou se apropriar de causas justas da população e se utilizar para intensificar os mecanismos de exploração, estaremos permanentemente em oposição a esses grupos oportunistas.

Com Vandalismo

O contexto dos movimentos de Junho, desencadeia um conjunto de protestos pelo país inteiro, os limites representativos da democracia burguesa e conservadora se apresentam, em uma verdadeira revolta popular e insatisfação e luta. Em  meio a esse contexto os termos, vândalos e baderneiros se torna um termo recorrente principalmente pela mídia, o Coletivo Áudio Visual Nigéria, do Ceara, acompanhou as manifestações buscando problematizar esses termos.


Relações Possíveis

Anticapitalismo

Todo indivíduo em seu tempo histórico se posiciona diante das adversidades que lhe são apresentadas, para tanto, não poderia ser diferente conosco, compreendemos o capitalismo com um processo de produção material e ideológico que rege as atuais relações sociais em que nos encontramos. Esse sistema capitalista apresenta um ideal de sociedade pautada sobretudo a partir de um desenvolvimento de modernidade.

A modernidade se apresenta também, a partir de um projeto civilizatório, que tende a aprisionar, domesticar e integrar todos os povos que de alguma forma não se adéquam ao projeto estabelecido, para tanto acompanhamos um processo de totalitarização global, que os teóricos neoliberais chamam de economia global, sistema transnacional e/ou mundialização, esse processo se apresenta de forma violento sobre as populações tradicionais do planeta, entre eles indígenas, quilombolas, campesinos, aborígenes e ribeirinhos, destaco esse conjunto como sendo aqueles que mais sofrem, pois a construção de sentido de suas atividades é antagônica ao processo de industrialização global, mas esses povos se encontra a margem do projeto do capital.



Dessa maneira, diante desse processo levantam-se movimentos anticapitalistas no mundo inteiro resistindo ao avanço dessa lógica, entre eles o Exercito de Libertação Nacional Zapatista (ELNZ), em Chiapas, no México. Pode ser citado tanto pela sua importância diante da preservação de um tipo de cultura em relação ao projeto civilizatório, como também pelo seu caráter radical em propor uma alternativa ao estado capitalista. Pautado tanto na ação direta, como na construção de uma política educacional de enfrentamento a lógica social estabelecida.

Fazemos assim nossas palavras, as palavras do subcomandante Marcos

“Nossa reflexão teórica como zapatistas não é somente sobre nós mesmos, mas sobre a realidade em que vivemos. Isso nos aproxima e nos limita ao tempo, espaço e dessas estruturas conceituais que vivemos. Por isso rechaçamos as pretensões  da universalidade e eternidade em que dizemos e fazemos [...] A reflexão teórica sobre a teoria   se chama ‘Metateoria’. A Metateoria dos zapatistas é nossa prática” (Subcomandante Marcos, 2003) [tradução]

Dessa maneira a reflexão que o ELNZ tem, não pode ser ignorado, principalmente diante do conjunto de movimentos anticapitalista que surgem e retornam dentro do tempo em que nos encontramos, diante das adversidades de uma cidade que se construiu na exploração de migrantes nordestinos, que ampliou-se a partir da misérias de trabalhadores em fábricas e ribeirinhos, que amplia seu processo de exploração impondo uma lógica estatal, não podemos nos designar de outra forma se não, anticapitalistas.

Um@ anticapitalista é um@ marginal por excelência, inquiet@, disfuncional diante das estruturas que são lhe apresentadas em seu tempo, um tempo sem forma e sectário, que divide mulheres e homens, que constrói uma ilusão de possibilidades, mas que na verdade serve ao grande capital, que na verdade cessar as possibilidades humanas e desumaniza os sujeitos.

Dessa forma rechaçamos de modo radical essa lógica que hierarquiza as relações sociais, que promove a exploração humana, que depreda as consciências, pautada a partir do medo e da ilusão de liberdade.
Somos anticapitalistas, pois enquanto esse sistema estiver vigorando, enquanto este for o método hegemônico de produção, estaremos sendo antagônicos e nossos conceitos se apresentam na prática cotidiana de enfrentamento, sem recuar aos avanços neoliberais, buscando mecanismos de empoderamento popular, de instrumentalização e organização horizontais, não descansaremos um minuto até que possamos criar as bases para a derrocada do capital

Quando nos afirmamos como anticapitalistas estamos fazendo referencia a um contexto que ganha ênfase a partir do final do século XX, com luta de diversos grupos sociais contra as políticas financeiras mundiais, contras as instituições internacionais de regulação econômica e social. No entanto, precisa-se distinguir que nem todos os movimentos anticapitalistas estão situados dentro de um campo de luta radical em relação ao capitalismo, apesar de serem contra ponto.

Apesar dos movimentos anticapitalistas estarem relacionados com um enfrentamento ao Estado e ao Capital, não necessariamente estes movimentos tem em seu horizonte possibilidades socialistas. Defino o socialismo como parte de um conjunto ideológico que visa analisar profundamente o capitalismo, se posicionando como alternativa de produção, consequentemente nesse campo se encontra diversas possibilidades de categorias, conceitos e grupos sociais que conciliam um ideal de organização social tendo como parâmetro a horizontalidade social, cultural, econômica e política.

O socialismo é contraponto econômico, político e filosófico de enfrentamento a sociedade capitalista, tendo como agentes transformadores da sociedade a classe trabalhadora, haja visto que para o capital tod@s são trabalhador@s, no entanto, é preciso ressaltar que análise socialista é um viés de ação que surge no século XIX, a partir da organização da classe burguesa e do enfrentamento dessa classe pelo operariado. No entanto, essa conceituação requer mais aprofundamento, pois o socialismo como categoria de compreensão está em constante processo de debate e construção, mas para a presente reflexão se faz necessário que possamos compreender o socialismo com um projeto antagônico ao capitalismo.

Então isso nos levaria a perceber que ser anticapitalista e socialista estaria dentro do mesmo projeto de sociedade, mas ser anticapitalista não determina ser socialista, alguns movimentos que se dizem anticapitalistas, como os movimento que cercou Seatle, em 1999, apesar da revolta e do posicionamento contra os acordos de livre mercado e de política financeira internacional, não propunha uma transformação social, mas uma outra possibilidade de livre mercado que pudesse levar em conta as questões locais.

Apesar dos movimentos anticapitalistas sugerirem um contra ponto ao capital, alguns dos movimentos que o compõe não estão preocupados diretamente com uma superação do capital, por isso ao afirmamos que somos anticapitalistas e anarquistas, estamos nos afirmando como uma possibilidade de organização socialista libertária, sobre um ideal do anarquismo social.

O vetor social do anarquismo no Brasil surge a partir de sua aproximação com os grupos sindicais e trabalhadores nos primeiros 30 anos do século XX, esse vetor social também se perde muitas vezes quando vemos movimentos como Diretas Já, Fora Collar, Marcha de Junho no Brasil, que apesar de representar um descontentamento geral com os processos de desenvolvimento do capital, não aponta seu foco para a derrocada do capital.

Essa perca do vetor social necessita ser recuperada, principalmente em nossa região, onde individualmente diversos grupos libertários acabam surgindo, mas há uma dificuldade de aglutinação e organização, por conta desse afastamento em detrimento de um viés individualista e por conta da própria lógica neoliberal que ocupa os espaços de convivência social na cidade de Manaus.



Para tanto, vemos que um viés anticapitalista é necessário para nossa conjuntura, para especificar nossa luta contra o capital, junto à pluralidade étnica, cultural e social que perpassa a nossa região (amazônica), para tanto compreender o viés anticapitalista tendo como horizonte de transformação uma sociedade libertária, pautada em um socialismo de livre associação entre sujeitos individuais e coletivos, que pode ser construído através do anarquismo social.

É nessa perspectiva que entendemos que a construção de uma organização anticapitalista e anarquista não é apenas necessária, como o único caminho possível para nosso contexto, tendo em vista que como descendentes de indígenas, como descendentes negros, como ribeirinho nossa luta precisa ser afirmada sob um viés socialista libertário, o anarquismo como organização filosófica e metodológica se faz necessário para que possamos transformar a nossa realidade.

Assim quando afirmamos que somos anticapitalistas não acreditamos será através de instituições regidas pelo capital que iremos executar uma transformação, mas no universo fora do Estado, onde há a possibilidade de vida e de enfrentamento ao projeto autoritário imposto por suas instituições. Quando dizemos que somos anticapitalistas, estamos afirmando que a sociedade que almejamos está pautada na democracia direta e na autogestão, nas possibilidades de emancipação humana.