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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Representatividade para Além do Capital*




As bases do desenvolvimento da sociedade capitalista no qual estamos inserid@s, não se baseiam somente no cálculo administrado da exploração humana, de uns sobre os outros, mas também a partir de valores conservadores que permitem que essa estrutura se reproduza em larga escala e em microrrelações.
Esses valores são permeados por elementos heteronormativos, etnocêntricos e patriarcais. Gostaria de elencar a questão etnocêntrica referindo-se a questão do homem branco, ou seja, a figura do colonizador que através da violência expropria e deteriora a história, os valores e concepções de diversos povos ao longo do globo terrestre na medida em que o imperialismo e o mercantilismo tecia suas garras pelos vastos territórios, tanto a figura representativa dos séculos anteriores, como a figura reconstruida na grande mídia ao longo do século XX.

Em nome desses processos, populações inteiras foram escravizadas, saqueadas, dizimadas, para ostentar o luxo e desenvolver artefatos culturais nas “metrópoles”, essa produção das ideias a partir das relações de produção e da interação de grupos na divisão social do trabalho no período contemporâneo acabou por elencar determinados sujeitos como protagonistas a serem reproduzidos pela arte burguesa. Esse sujeitos eram brancos, homens e europeus, na medida em que o próprio Estados Unidos da América se torna uma potencia imperialista, ao longo do século XIX, ele passa a reescrever sua história e os modos de produção cultural, buscando invisibilizar todos os sujeitos que de alguma forma fugissem a normatividade instituída a partir dessa relações. O mesmo ocorre nas produções literárias, artísticas eurocêntricas. 

A partir do momento que a população negra, bem como o movimento LGBT e os movimentos feministas ganham espaços nos debates na esfera pública, através de ação direta em determinados momentos, através de luta pelo reconhecimento em outros momentos, as questões sobre o monopólio da representação no campo cultural da sociedade capitalista passa a ser questionado e reivindicado do mesmo modo.

Essa síntese que fiz tem como objetivo apresentar um argumento, que em uma disputa de classes, no enfrentamento ao machismo, ao racismo e a heteronormatividade, uma luta pela construção de representações é tão importante como os piquetes para parar a relações objetivas do capital.

O capitalismo por sua vez possui mecanismos instrumentais para incorporar a sua lógica de desenvolvimento uma falsa representação das populações fora do eixo de valores originários de populações negras e indígenas. A moral burguesa se empenha em fingir que deixa de lado esses valores, quando na verdade busca aperfeiçoar seus mecanismos de controle, dominação e exploração

A disputa no campo das representações é uma luta no qual as regras estão dadas pela técnica produzida pelo mundo capitalista, isso significa que este define o tipo de representatividade a ser apresentada em determinados ramos da produção cultural de massa. A industria estaduniense acaba definindo determinados valores de consumo e de reprodução de representatividades. Do mesmo modo o cenário eurocêntrico onde se produz outras formas cultura e conhecimento que visam afastar as populações de emancipar-se das ideias que lhe são impostas.

Ocorre que as pessoas disputam essa representatividade, na medida em que localmente as interações sociais produzem outras formas culturais e de representatividade, dessa forma a luta pela representatividade autônoma capaz de comunicar de fato os elementos importantes para a emancipação sociais dos indivíduos, não pode ser relegada a um segundo plano.

É uma erro estratégico  - enquanto libertárixs, socialistxs e anarquistxs – ignorar o que isso representa, pois o Estado e o Capital andam de mãos dadas para sabotar e deslegitimar a luta por representatividade nos campos das produções culturais, precisamos reforçar a luta autônoma, uma ação cultural direta, em nossas produção que busquem enaltecer a população negra, indígena, campesina, na medida em que iremos reiventar as formas de produção cultural de uma forma anticapitalista.

Trabalho esse que não de forma alguma fácil, pois precisamos destruir estruturas simbólicas compartilhadas e modos de produção de ideias que há muito tempo estão vigentes dentro da sociedade, nossa luta precisa ser:
A )    pela construção de outros espaços culturais, onde o lucro não seja objetivo final, ação essa que diversos coletivos, associações e grupos de luta autônomas, libertárias, de tendências anticapitalistas, realizam constantemente nos espaços. 

B)    Na luta pela legitimação de representações autônomas e emancipatórias, isto é, atacar a linguagem capitalista de produção de representatividade e não as diversas população que estão em disputa, mesmo que o horizonte não seja libertário, a nossa luta ideológica se faz na prática, nosso discurso caminha aliado com nossa ação, precisamos lembrar da máxima de estar lado a lado com aqueles que estão contra os poderes hegemônicos em todas esferas.

C)    O desafio de descolonizar nossa compreensão de realidade, o que envolve um atividade constante consumo e produção de outras formas culturais, a contra cultura precisa ser impregnada de ideais contra -hegemônicos, de modo algum rendendo-se as diretrizes do capital.

Essas três formas de ação envolve parâmetros essenciais de uma luta por representatividade, que não pretende ser a correta, muito menos a única, essa disputas ocorrem cotidianamente na medida em que estamos buscando desestruturar os valores hegemônicos que permitem controle, dominação e exploração social nessa sociedade, não podemos nos aliar e atirar pedras contra nós mesmos, precisamos declarar guerra a quem de fato são nossos inimigos, as grandes corporações capitalistas, que se utilizam de uma luta legitima para produzir mais capital, para “inserir” um número maior da população nos meios de produção.

Temos que ter em mente, que a emancipação das ordens econômicas caminha concomitantemente com a emancipação das ordens culturais, lembrando nossa ação direta visa ambas dimensões da realidade.

Para tanto, precisamos construir formas de autorrepresentações para além do capital, isso é base para a revolução e para a derrocada do Estado, pois na medida em que enfrentamos e construímos outras estratégias, maiores são as chances de vencermos o neoliberalismo transversal das relações sociais, produzidas nessa sociedade de capitalismo financeiro.



* Esse texto é uma debate sobre representatividade nas produções culturais, o termo representatividade é um conceito comum debatido por diversos campos do movimento social que envolve uma luta por reconhecimento de identidades. 



Notas

1. A motivação para o desenvolvimento dessa reflexão é uma tentativa de situar estratégias de enfrentamento a apropriação de uma luta legitima feita pelo grande capital, os argumentos apresentados de forma sucinta servem apenas como um ponto de ignição para maiores debates a serem construídos ou desconstruídos, não é de modo algum um manual de regras, ao contrário é anti-manual.

2. O termo cultura ou cultural apresentado aqui envolve um campo semântico relacionado a produção cultural de nossa própria sociedade, tendo em mente que é um conceito caro, a cultura aqui apresentada compreende artefatos socialmente compartilhados que interferem subjetivamente nos campos das representações e ideias, quando me refiro a cultura como produção artística, mesmo sabendo que ela pode assumir outros significados.

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