Toda decepção com o sistema representativo está na ilusão de que um governo e uma legislação surgidas de uma eleição popular deve e pode representar a verdadeira vontade do povo (BAKUNIN)
Bakunin compreendia que essa legislação não tinha como ser
construída de forma representativa pelo fato das forças de colizão capitalistas
firmavam os parâmetros para esse acordo “democrático”, onde a população estaria
a mercê, o ordenamento jurídico e político desses mecanismos estariam sujeitos
as forças econômicas e políticas daqueles que detém o monopólio sobre a
produção. Mesmo com uma grande diferença entre o século XIX e o século XXI,
mesmo com o processo de socialdemocratização de um Estado de bem-estar, os
elementos fundamentais do ordenamento jurídico que manusea a ordem social em
favor do sistema capitalista, tende a nunca garantir que a “vontade do povo”
seja garantida.
Justamente porque a defesa da vontade do povo no discurso
político dentro desse sistema capitalista na verdade é uma construção
ideológica para justificar as ações da classe burguesa para ampliar seus lucros
e sua exploração, a burguesia não se alia, ela constrói a realidade conforme a
sua necessidade, ela revoluciona somente na medida em que essa revolução
aperfeiçoa suas práticas.
A distancia entre o político e o povo tende, na medida em
que a ideologia da burguesia avança em suas legislação a se tornar um abismo
incapaz de ser transposto facilmente. A distinção entre o legislador e o povo,
como duas categorias genéricas era para Bakunin o mecanismo para apresentar as
forças de oposições em disputa na sociedade, podemos compreender que o povo era
visto por Bakunin, como sendo os indivíduos livres em um embate com os sujeitos
autoritários.
Essas duas categorias, povo x legisladores, é o cerne da
própria organização burguesa, pois ela precisa construir seus mecanismos de
distinção para poder conter de forma objetiva e subjetiva a fúria
revolucionária da população, na medida em que as organizações políticas burguesas
se estabeleciam aliadas ao Estado Moderno, a distância tenderiam a aumentar, na
medida em que o capital acumulado também fosse injetado nessa máquina de
controle, que o Estado.
Apesar de não colocar nesses termos em que apresento essa
reflexão, ele apresenta de que forma essas forças estariam se construindo em um
processo germinal de sua época.
Por mais democráticos que sejam seus sentimentos e suas intenções, atingida uma certa elevação de posto, veem a sociedade da mesma forma que um professora vê seus alunos, e entre professores e alunos não há igualdade. De um lado há o sentimento de superioridade, inevitavelmente provocado pela posição de superioridade que decorre da superioridade do professor, exercite ele o poder legislativo ou executivo. Quem fala de poder político, fala de dominação. (BAKUNIN)
Essa alegoria do professor e do aluno utilizado por Bakunin
no panfleto indica que as posições assumidas por ambos indivíduos encontram-se
de modo desigual, pela própria estruturação da sociedade a qual se faz parte,
em Instrução Integral e em outros textos Bakunin alerta para que não se
construa essa distinção no processo revolucionário onde o intelectual se torne
agente a serviço da autoridade.
Os mecanismos de dominação do qual ele fala, envolve uma
fazer crer que existe uma igualdade
política entre o legislador e a população, essa igualdade política é uma ficção pueril utilizada para ajustar a
ilusão do sufrágio universal na medida em que o legislador compõe-se enquanto
categoria – dentro de uma classe – que busca se distinguir e privilegiar em
detrimento da população.
Consequentemente se tornando ponte da classe que expropria e
explora, o sufrágio universal é o cerne de uma manobra orquestrada – ora
consciente e ora inconsciente – para conter o verdadeiro conflito de classes
inerentes as contradições da sociedade capitalista, isto quer dizer que
constitui mecanismos de estruturantes de
dominação, onde os legisladores são agentes a serviço de instrumentalizar a
vontade de uma elite.
Quer seja no parlamento, quer seja no parlamentarismo de
base reproduzido em várias esferas, onde o sujeito tem sua vida política
expropriada em detrimento a uma falsa representação de sua vontade, onde o
parlamentar, assume na verdade a vontade do capital.
Hoje os reformistas acreditam que se extinguirmos o
financiamento privado das campanhas, possa ser suficiente para alterar o
sistema de dominação imposto pelo capital a esfera política representativa, ou
mesmo que a escolha de um novo quadro mais “íntegro” seja suficiente para que altere-se as condições sociais.
Ocorre que como um mecanismo estruturante
de dominação, a democracia representativa não busca resolver o problema em
si das desigualdades sociais, na verdade ela visa uma conciliação de classe,
que em termos práticos é impossível.
Impossível , pois a ilusão das eleições tem como único
propósito administrar o conflito de classes criados por um sistema de
exploração desenfreado, visa construir instrumentos de perpetuação do sistema
econômico vigente e da reprodução de distinções sociais através dos artefatos
estatais de reprodução – escolas, instituições, polícia.
É verdade que, em dia de eleição, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política, deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminada a eleição, o povo volta ao trabalho, e a burguesia, a seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram e não se reconhecem mais. (BAKUNIN)
fonte: A Ilusão do Sufrágio Universal. Mikail Bakunin.


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