Maria Lacerda de
Moura já dizia há mais de um século atrás “[...] essas revindicações não se
podem limitar a ação caridosa ou a um simples direito de voto que não vem, de
modo algum, solucionar a questão da felicidade humana..” (MARIA LACERDA)
A fala dela me faz pensar, em dois pontos, primeiramente na
ação caridosa que o Estado toma em relação aos movimentos sociais – de minorias
– dentro do país, um discurso reacionário colocaria os movimentos sociais como
vilões que realizam acordo com o Estado para receber a caridade dos poderosos, mas não se trata disso, o que ocorre são
estratégias sofisticadas do comitê executivo empresarial para manter uma coesão
social para que o capital possa manter-se em livre circulação. E o segundo
ponto é a farsa do sufrágio como prática possível de transformação social
Maria Lacerda já havia percebido deste muito tempo que essas
ações caridosas são apenas estratégias para docilizar os movimentos sociais,
fingindo incorporar ao Estado suas pautas e defendendo o que deveria ser obvio,
no entanto, mais que uma tática se torna uma pratica incorporada dentro de
nossa subjetividade, que acomoda e normaliza a dominação presente na sociedade.
Criando dessa maneira a incapacidade de saídas do plano
estabelecido pelo Estado, que se configura em mandatos de representantes do
povo de 4 em 4 ano, representantes esses que se afastam tanto da realidade da
maioria da população e que se perdem na lógica burocratizada do próprio Estado.
O sufrágio proposto pelo voto não se realiza se as questões
básicas de existência da população não podem ser respeitadas, estas não seria
por conta de uma gestão ou administração falha, não existe isso, pois a lógica
capitalista não respeita e nunca ira respeitar as condições básicas de
existências dxs trabalhadorxs, das mulheres, dxs negrxs, dxs indígenas.
A eleição é um circo armado, onde somos obrigadxs a votar,
em um mesmo conjunto técnico político – de candidatos – que mantém a ordem
vigente e reproduz o discurso dominante é uma farsa no sentido que não
representa de fato a vontade do povo, pois ela não se personaliza em pessoas, a
vontade do povo existe na experiência cotidiana de trabalho e de organização
social, por mais que um candidato a assumir um cargo possa dispor-se a dialogar
com a população, este será um articulador dentro do Estado e será a voz do
Estado e não da população.
“Nas eleições o voto não serve para emitir uma opinião, mas
para legitimar um mandato” (VIDAL, 1986)
Por isso o desespero para que não se vote nulo, sabemos que não
se pode anular uma eleição apenas votando nulo, não se trata disso, se trata de
realizamos a chamada para um processo de conscientização política, se trata de
abandonar as práticas estabelecidas pela classe dirigente, que come bem, dorme
bem e vive bem a custa da nossa existência na miséria.
Em diversos estados da federação a campanha do voto nulo e
de não vote vem sendo silenciada e atacada por sendo uma inutilidade, mas o
voto em si se torna anulado quando não há a participação popular ao longo do
ano inteiro na política, quando nos é negado os direitos básicos, a educação e
a saúde de qualidade, quando manifestantes são criminalizados em plena
democracia.
Não há saídas para capital dentro do Estado, mesmo uma
parlamento repleto de funcionárixs públicos socialistas, se perpetuarem a
prática do Estado, estarão perpetuando uma lógica autoritária, precisamos
retornar as bases de trabalho, em uma democracia face a face, cotidiana, em
cada ato produtivo que tivermos pensarmos coletivamente e conjuntamente.
As eleições como podem ver são acordos e conchavos entre
lobos, escolhendo quem vai atacar o rebanho e de que forma nas próximas eleições.
Não pretendo me estender mais que o necessário, mas deixar
um recado se faz necessário, não deixem que roubem da gente nossa capacidade de
agir politicamente, ela nos pertence, precisamos exercer nosso voto
cotidianamente e não em urnas, nossa visão de mundo e política precisa ser
transformada por um ideal mais amplo.

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