Existe uma questão
recorrente para @s anarquistas em nossa atual conjuntura, se no inicio do
século XX a maior cobrança era em relação à organização, atualmente as
perguntas nos vêm na seguinte forma, se derrubamos o Estado, “de que forma
iremos continuar vivendo em sociedade sem o Estado”. Estranhamente que quando
essa pergunta surge, outra questão deveria ser relacionada, “precisamos de Estado
para viver em sociedade?”
Esse tipo de
organização que conhecemos com Estado Nação, tem pouco mais de 300 anos, se
formos mais radicais, os mecanismos estatais da sociedade moderna que
conhecemos agora tem pouco mais de 100 anos, apesar de ser a mesma estrutura
autoritária o Estado se transforma ao longo dos anos. No entanto, o Estado não
é uma coisa amorfa, que paira no ar sobre nossas cabeças, não é uma entidade
espiritual que rege nossas vidas, o Estado é um conjunto de instituições
materiais que ordenam e impõe um tipo de organização, assim o Estado Moderno
impõe um tipo de organização capitalista, que é gerido pela classe burguesa. A
classe burguesa na modernidade se torna uma classe eclética, divididas entre
aqueles que exploram em nível local e aqueles que exploram em nível mundial.
No entanto, essa forma
de Estado Capitalista, poderia ser substituída por outra forma de Estado? Então
não precisaríamos derrubar o Estado, errado, não há como substituir o Estado
por outro tipo de Estado, pois ele refere-se a um tipo de organização
autoritária e hierarquizada, pautada por uma burocracia instrumental, que rege
as relações das coisas, a derrocada do capital é apenas parte do processo, se
não derrubamos o Estado, se não o povo não for empoderado politicamente e
socialmente estaremos fadados a retomada do capital, pois este procura
adequar-se ao que for necessário para sua sobrevivência.
A propriedade é um
roubo, (PROUDOHN), o Estado é o violentador da vítima desse roubo, ele que
permite que esse roubo, essa usurpação de direitos aconteça e mantêm todos o
que são contrários aos seus ideais na marginalidade, por isso não se trata de
Estado de Exceção, pois isso seria afirma que existe uma Estado de Direitos que
pode ocorrer, mas isso não existe, pois essa Exceção é regra dentro das condições
de um Estado Capitalista, mais ainda dentro de uma sociedade capitalista, isso
significa afirmar que o exploração, o autoritarismo e a miséria são condições
essenciais para o desenvolvimento dessa organização capitalista.
Dessa maneira, o que
acompanhamos nos últimos meses, na ultima semana, as injustiças sociais que
acompanhamos diariamente não são consequências de uma entidade supraestrutural,
mas de pessoas que estão mantendo em funcionamento um tipo de Estado baseado na
exploração das pessoas, para que isso ocorre sem que tudo não se inverta se faz
necessária uma ideologia que permita um sentido na miséria humana.
Essa ideologia é
transmitida por conjunto de legislação que normaliza essas injustiças, através
de uma teoria punitiva e “compensatória”, que não rege nada, que desconhece a
humanização, que apenas verifica o que esta dentro da normatização, essa normas
regem o tipo de educação, o tipo de economia, o tipo de ética social a ser
estabelecida entre os sujeitos, e consequentemente rege as formas de
comunicação dentro dessa sociedade, pois comunicar-se é parte também do
controle social exercido sobre as pessoas.
Ao comunicarmos estamos
trocando e possibilitando novas perspectivas de mundo, alternativas, isso
também é regido por esse mesmo Estado, não a toa que o direito a comunicação em
massa é uma concessão dada a empresas especializadas em comunicar, informar e
reproduzir os sentidos de uma sociedade de consumo.
Assim ao analisamos o
termo “Estado de Exceção”, na verdade estamos analisados a regularidade autoritárias
do Estado Moderno, essa estrutura só se organiza dessa forma em prol da própria
acumulação do capital, os subsídios cedidos aos cidadãos são apenas
investimentos para serem retomados em outro momento histórico. Não existe exceção
para os instrumentos políticos estatais, existe uma ordem a ser seguida, mesmo
que parece caótica.
Os “desvios” na verdade
são descobertas expostas pelo próprio sistema, em uma tentativa de adaptar-se a
um contexto global de ação, visando o fluxo contínuo do capital, a cidade de
organiza dessa maneira e assim desejam que nossa vida se organize dessa maneira
categórica em prol ao acúmulo.
Ser profissional é
estar disciplinado sob um conjunto de regras e valores que estão estabelecidos
por uma legislação, regulamentada por uma justiça verticalizada a partir do
núcleo produtor do Estado, falar do Estado em si é falar de uma estrutura vasta
e complexa, composta por diversos agentes e instituições concatenadas entre si,
estabelecidas por uma lógica, uma única lógica regida pelo capital.
Isso significa que todo
conjunto abaixo desta lógica deve se adequar ou será aniquilado, isso pode ser
visto com a dificuldade em que esse tipo de organização têm em lidar com as
diferenças culturais que se encontram abaixo de sua asas.
Recentemente
noticiou-se nos principais meios de comunicação um conflito no sul do amazonas,
tendo como etnia Thahirim como sendo acusada de ter assassinado três homens na
estrada, desencadeando na cidade protestos e um discurso de ódio contra indígenas,
esse ódio não surge da noite para o dia, esse sentimento é uma construção de
anos de “exceção” políticas voltadas a grupos étnicos e para que a própria população
se conscientize a respeito do significado de ser indígena.
Esse exemplo é apenas
um dos extremos que se chega dentro de uma lógica autoritária imposta pelo
Estado, onde este impõe não reconhece no indígena um agente dentro do sistema,
sendo marginalizado e nesse caso sendo ameaçado de extinção, por conta de
boatos.
O mesmo ocorre na
construção de políticas para as mulheres, esse subsídio estatal visa na verdade
aglomerar as mulheres dentro de um mercado de troca econômicas e simbólicas,
dando concessões limitadas a pautas femininas que são essenciais, que envolvem
a saúde feminina, liberdade sexual e reprodução de existência, mas que o Estado
e diversos outros setores apenas têm como uma questão secundária a ser
resolvida, tanto que casos de assédio moral e sexual se reproduzem dentro do
seio das instituições como sendo “desvios”.
O tipo de policiamento
desse Estado reflete objetivamente as condições impostas por essa lógica,
servir e proteger a ordem significa proteger os direitos burgueses e a propriedade
privada, enquanto essa lógica for seguida os policiais não estarão em
comportamento “desviado”, mas seguindo a norma dessa lógica capitalista
desumanizada.
O ser humano não se
encontra dentro dessa lógica capitalista, ele é consequência da troca de
mercadoria, o humano é coisificado e transformado em mercadoria e se tornando
um objeto de valor desvalorizado dentro do campo econômico.
As relações
brutalizadas são instrumentalizadas dentro do Estado, que legaliza e normatiza
a violação humana e não vai adiantar pensa em um Estado mais Humano, pois este
ainda se fundamentará no ideal liberal de garantia da propriedade privada. Se
faz necessário superar essa estrutura e construir uma relação social mais
compreensiva, construindo para além do Estado e do Capital.
Tendo em mente que essa
transformação cultural deve ocorrer aliado ideal não somente socialista, mas
feminista e anticapitalista. A luta feminista nos apresenta uma possibilidade
única de transmutação de valor , o empoderamento da lógica feminista desconstrói
nossa relação com a humanidade, para tanto a frase “a revolução necessita ser
feminista” não é apenas um jargão, mas um ideal de luta, bem como lidar com os
diferentes povos e etnias nos ensina que alternativas de existência são possíveis
e efetivas tanto na relação entre os seres humanos, como com a natureza.
Nesse sentido nossa proposta é de transformação
total das relações estabelecidas fora do Estado, pois a vida livre só é
possível fora dessas estruturas autoritárias, o ideal libertário é
transfigurado em uma luta necessária antiautoritária, antimachista, e
anticapitalista, essa nossa negação não é pautada em um ideal, mas a partir de
uma análise da realidade que nos cerca.
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