A questão nacional se coloca desde
o início da história, no primeiro momento, como dilema prático e teórico.
Ocatvio Ianni
Nos
últimos anos temos acompanhado constantes criticas ao Estado e ao Governo
referente às condições de funcionamento dos serviços públicos, para além disso
a critica se localiza na organização desses serviços dentro de uma lógica neoliberal
que foi estabelecida desde antes de 1992 a partir da política de abertura de
mercado proposta pelo presidente Fernando Collor de Mello, estruturando-se na
presidência de Fernando Henrique Cardoso e sendo continuada com as políticas de
empoderamento econômica instituídas pelas presidências do Partido dos
Trabalhadores e aliados.
Ao
longo de 21 anos as instituições de serviço público acompanham um processo de
sucateamento social, que não poupa nenhuma área de atendimento social, indo da
educação pública aos serviços de transporte públicos. Consequentemente, aliado
a este processo de sucateamento, há também um aprofundamento do sistema
capitalista a partir de uma globalização e a mudança de recursos nacionais para
um fluxo de capital internacional ou a internacionalização do capital (IANNI,
2001).
Esse
processo não ocorre sem que existam mecanismos de resistência que surgem no
seio da sociedade civil, mesmo que supraestrutura do fluxo de capital imponha
um processo de globalização ou globalitarização no entendimento de Milton
Santos, há um processo de resistência constante das regiões que são deslocadas
para fora desse sistema mundo, consequentemente o esfacelamento dos estados
nacionais coloca os serviços público em um processo de transmutação, onde o
recurso público tende a se tornar capital privado, não a toa os pilares desse
modelo de organização nacional vem sendo
questionado constantemente.
O executivo, legislativo, judiciário e os
partidos, assim a sociedade civil procura por outros meios compreender a
relação do Estado Nacional, não à toa que a questão nacional é recorrente no
entendimento dos protestos que tomam conta do Brasil, não à toa o sentido
simbólico expresso por um senso comum que perpassa a todos em um misto de
reconhecimento e identidade parece se compartilhado pelos manifestantes que não
querem ser reconhecidos por partidos, que não querem ser reconhecidos por
movimentos sindicais, ou qualquer outra entidade a não ser pátria mãe gentil, colocando em público o descontentamento por
diversas questões, deixando de lado a própria história de vários movimentos
sociais.
Esse
sentimento nacionalista é uma faca de dois gumes, por um lado o sentido
semântico da nacionalidade por trazer consigo a possibilidade de agregar diversas
pessoas, de constituir um sentimento de solidariedade único que pode se
superamos a questão nacional torna-se um sentimento de compreensão das
diversidade cultural no mundo, onde todos os seres humanos poderão ser vistos
como iguais e diferentes ao mesmo tempo, assim mudarmos de uma vez a proposta
estabelecida pelo capitalismo onde necessitamos explorar um irmão para que
possamos sobreviver nesse mundo. Por outro lado esse sentimento nacional é
também situado por um sentimento de negatividade do outro, onde a união pode
descambar na intolerância e ódio pela diferença, de identidade, cultura,
sexualidade e de gênero, em prol de uma unidade social inexistente e imposta
pela violência contra os povos tradicionais, trabalhadores do campo, operários,
homossexuais, povos indígenas, quilombolas e todos que se recusarem tomar parte
nessa empreitada nacionalista.
As
revoluções na América latina são demarcadas por uma força que estabelece
verticalmente a partir das classes dominantes, que são representadas primeiramente
a partir da nobreza colonial que se estabelece nos territórios dominados
impondo suas regras e ações, em seguida passando por um processo de rompimento
com a metrópole em um discurso de independência demarcando certa autonomia e
sentimento de independência em volta de um novo tipo de proposta de dominação,
quer seja republicana ou monárquica, finalmente procurando situar-se em um
democracia representativa, que não altera em nada as estruturas de dominação
impostas na sociedade.
A
sociedade nacional se forma aos poucos, de modo contraditório, em vais-e-vens,
como se estivesse demoradamente saindo do limbo. Paulatinamente, nas terras
americanas, os conquistadores vão se tornando nativos, colocam-se em
divergência e oposição em face da metrópole, passam a lutar pela pátria. Surgem
as inconfidências, insurreições, revoltas, revoluções, nas quais estão
presentes nativos, crioulos, nacionais, mestiços, mulatos, índios, negros,
espanhóis, portugueses, ingleses, franceses, holandeses e outros. Começam a delinear-se
a sociedade, o Estado, a Nação, em torno de uma cidade, região, movimento,
líder; ou cidades, regiões, movimentos, líderes.(IANNI, 1987)
Mesmo
nas insurreições, insurgências, luta por independência, luta pela república e
pelo Estado Moderno, o sangue derramado foi o sangue da população, dos
excluídos, do escravo negro e indígena, do trabalhador do campo, do operário,
dos pobres e dos loucos, estes estavam sempre sendo utilizados como linha de
frente dessas revoluções burguesas, tendo como pano de fundo o nacionalismo
como ponto inicial e final de progresso da sociedade.
As
revoluções populares se constituíam de modo diferenciado, a partir do
descontentamento das populações excluídas dessa estrutura modernizante,
passavam a resistir diante das imposições daqueles que detinham o monopólio das
instituições do Estado e doo uso da violência, no entanto na maioria dos casos
as revoluções acabavam na transmutação de um personalismo social, onde a figura
de um salvador despontava do meio da população, levando a uma gama de governos
populistas na América latina.
Compreendendo-se
isso na maioria dos casos as forcas dominantes procuravam no personalismo da
liderança popular realizar a transformação que acreditava ser necessária. A
relação entre esse processo e as manifestações que se espalham pelo Brasil se
encontra na produção de um patriotismo imposto pela grande mídia, inclusive por
entidades especializadas em tratar de produzir mensagens em redes sociais,
impulsionando dessa maneira a um ataque personalista, já que na há uma
liderança reconhecida pelas instituições associadas ao Estado nos protestos.
Esse
ataque personalista é direcionado aos movimentos sociais, aos partidos de
esquerda e a presidente Dilma, como sendo figuras antagônicas do povo e da
nacionalidade construída, seguida de grupos fascistas e integralistas que
encontram na oportunidade do anonimato a possibilidade de difundir um ideal
nacional e de união perverso.
Esses
grupos políticos que defendem a moral, o bem-estar e o apartidarismo e também políticas de desenvolvimento econômico que
deslocam aqueles que são excluídos para um espaço mais distante das políticas sociais,
compartilhando entre si um discurso autoritário e antidemocrático. Para tanto,
se dizem ser sem partidos, mas escondem relações diretas com o campo de atuação
da direita conservadora no Brasil. Excluindo as histórias de entidades que
estiveram sempre ao lado da população menos favorecida e que não tem acesso aos
serviços públicos.
Assim
repudiamos toda forma que possa gerar a opressão e implodir o debate dos
movimentos sociais dentro da sociedade, iremos lutar pela democracia direta, liberdade
e pela emancipação humana desse sistema capitalista. Haja visto que essa mesma
classe dominante já procurou se apropriar de causas justas da população e se
utilizar para intensificar os mecanismos de exploração, estaremos
permanentemente em oposição a esses grupos oportunistas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário