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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Os perigos de um Pensamento colonizador nos movimentos sociais.

A constituição do estado moderno perpassa por diversas condições para sua estruturação, para tanto os limites territórios aliados há um dispositivo jurídico que legitima sua ação dentro desse território determinado é ponto essencial para o desenvolvimento e perpetuação de um modo capitalista de produção.

Consequentemente essa divisão sociopolítica acaba constituindo uma diferenciação entre o nativo e o estrangeiro, onde há o estrangeiro bem vindo, que se caracterizam naqueles que detém sobre si poder legitimado do Estado e do capital, esses estrangeiros fazem parte da lógica de produção e reprodução desse Estado Moderno, consequentemente essa figura não é só bem vinda como também é beneficiada pela sua presença, isso ocorre em condição microssocial e macrossocial, quando vemos o jargão “isso é para inglês ver”, ou quando tratamos bem um estrangeiro europeu.

 Há também o estrangeiro que não é bem vindo, que marginalizado se apresenta como sendo o imigrante, o invasor, aquele que não devia estar aqui, que se encontra dentro de um gradual estado de risco, de afastamento e de esquecimento. A esses estrangeiros nossa sociedade reserva o trabalho superexplorado, ilegitimado, sua presença é tida como perigosa e seu local é no gueto, nos becos, longe dos olhos das pessoas.

Esse sentimento xenofóbico que parece ser naturalizado em nossa cidade é consequência também de uma lógica de diferenciação entre os daqui e os de lá, o outro sendo colocado em segundo plano, destituído de direitos e de reconhecimento social.

Essa distinção se é perpetuada tanto por condições de ordem econômica e sociais, como por questões subjetivas inseridas por uma educação colonial, que tenta perpetuar uma espécie de identidade nacional, que une um povo ou nações sob ideais comuns que definem um sujeito a partir de características culturais, por exemplo, o que diferencia um trabalhador brasileiro e de um trabalhador argentino? O que diferencia uma mulher brasileira e de uma mulher haitiana essa estrutura estabelecida pelo capital? Em primeiro momento não se diferenciam em nada, mas quando nos aproximamos e verificamos a formas de tratamento para um@ ou outr@, podemos observar que ao estrangeiro incomodo lhe é imposto uma pesada carga de desconsideração de identidade social.

Suas práticas culturais, religiosas, sociais são estranhas e lhe é negado o direito de ser como se é, passa-se a excluir a possibilidade d@ Outr@ se tornar companheir@ de luta, não lhe dando crédito na possibilidade de construção de alternativas sociais.

A exploração e expropriação que o capital realiza sobre os sujeitos são inerentes a tod@s, no entanto, o imigrante se encontra em condição de marginalidade acentuada e em constante risco de vida, por conta dessa perpetuação de preconceitos que tem como referencia essa identidade nacional.


A ideia de superação desse nacionalismo é algo que se faz subjacente na luta por emancipação humana, nos ideais socialistas e libertários. Têm em seu entendimento que o capital não discrimina trabalhador, mas que explorar de qualquer modo a força de trabalho independente de sua nacionalidade, mais ainda aqueles quem condição da marginalização social.

Se analisarmos essencialmente a palavra imigrante já subjaz uma condição valorativa de marginalização em detrimento a palavra estrangeiro, que não apresenta essa mesma conotação, a referencia nos jornais a imigrantes são referencias a sujeitos em condições de risco social e discriminação, a parcela conservadora que compõe a sociedade utiliza desses mecanismos para influenciar na construção de uma falsa necessidade de que se faz necessário o controle das fronteiras e do transito das pessoas em um determinado território.
Esse comportamento se é perpetuado a partir de estruturas colonizadoras que promovem um sentimento de nacionalismo, criando uma verdadeira barreira ente os daqui e os de lá, não se trata de perspectiva, mas de um efetivo sistema que sectáriza a sociedade impendido de ouvir o outro que é diferente.

A crença desse nacionalismo perpassou inclusive diversos ramos socialistas por um tempo durante o século XX, a necessidade de defender o mercado nacional ou a indústria nacional, acaba reforçando a distinção entre nativo e estrangeiro, quando na verdade deveria superar a questão do capital não importando a nacionalidade. Esse sentimento de nacionalismo se mostrou historicamente nocivo e prejudicial principalmente para uma proposta de superação de capital e de emancipação humana. Assim como tivemos alguns ramos socialistas que mantiveram o ideal internacionalista como proposta de ação social.
Cabe refletir que esse comportamento xenofóbico seria combatido em qualquer ambiente libertário e internacionalista, mas cabe ressaltar esse sentimento de baseia em práticas colonizadoras, de imposição de um tipo de lógica e compreensão de mundo, pautada em um sentimento de nacionalismo que se constrói para se assumir uma posição de poder em relação a outro.

Os protestos de Junho de 2013, no Brasil, esse sentimento de nacionalismo veio à tona, tanto perpetuado por uma estrutura midiática como por influência de um conjunto de instituições conservadoras (escola, empresas, igrejas) que reforçam esse pensamento colonizado e nacionalista, que nos mostra que há uma disputa e uma crítica necessária a ser realizada de um pensamento perigoso que cerca os movimentos sociais.

Tendo em vista que falar de movimentos sociais é uma categorização que acaba generalizando um conjunto de sujeitos que estão em disputa por direitos diferenciados, reconhecimento e afirmação de identidade, transformando um conjunto heterogêneo de sujeitos coletivos com práticas e metodologias distintas, sob essa categoria, se faz necessária essa generalização se faz na presente argumentação, apesar de ser apenas um tipo de interpretação possível.

Nós do movimento social necessitamos realizar uma crítica em relação a esse sentimento subjacente colonizador que aparece em falas negligentes de sujeitos pertencentes a grupos em atividades ou com experiência ativista dentro dos movimentos sociais. Ao desconsiderar que em regiões distantes possam existir a possibilidade de feminismo classista, do anarquismo, de um socialismo radical, estar-se colocando estes grupos como sendo o outro e impondo uma lógica colonizadora de um tipo de comportamento militante a ser seguido.

Se assim fizermos estamos apenas reproduzindo outro mecanismo de hierarquização e estamos usurpando a possibilidade de empoderamento que os sujeitos de sua história possuem, impor uma maneira de agir para todos é ignorara própria trajetória pessoal de cada militante. Sabemos que não é dado, mas construído historicamente, dessa maneira não podemos entender a trajetórias de grupo como etapas a serem cumpridas, que a partir de um formula mágica de militância se ira conseguir os mesmo resultados de outras regiões.

Seria admitir que os mecanismos do capitalismo fossem iguais em todas as regiões do planeta, e sabemos que não o é, nem mesmo existe uma classe burguesa universal, do mesmo tipo, em cada região há diferenças e características particulares a serem levadas em conta, por isso apesar de não ser da mesma forma, devo afirmar que existe feminismo no norte, existe anarquismo no norte, esses uma crítica radical afastada do centro da discussão, que são marginalizados e deixados de lado.

Do mesmo modo não se pode negar que acumulo de experiências de luta em outras regiões só tende sofisticar as estratégias de luta e reinjetar uma animo maior em diversos outros grupos. Essa troca social que se faz necessária ser retomada para romper com os perigos do sentimento colonizador.

Em alguns casos esse sentimento pode ser visto em sujeitos que detém um tipo de conhecimento social institucionalizado, que procuram dessa forma reafirmar essa posição como mecanismo de poder em relação a outros sujeitos, reproduzindo dessa maneira o discurso vazio intelectualizado sem prática social alguma.

Retornado a questão do vetor social que necessita ser resgatado dentro dos movimentos libertários, no caso de Manaus, em determinados momentos o pensamento tido como libertário alojou-se dentro de instituições acadêmicas, como a Universidade Federal do Amazonas, como sendo o único local de possibilidade de transformação social e de espaço para essas ideias. Apesar de ser um espaço importante e icônico no que se refere a resistência não pode ser compreendido como único espaço possível de proliferação de ideais libertários, dessa forma, por conta de condições históricas particulares, como repressão a ideias anarquistas e um conservadorismo social instaurado pós ditadura, o anarquismo passou a ser compreendido como alguns apenas como uma teoria, mas sem prática social, liquidando dessa forma o vetor social por muito tempo do anarquismo na cidade de Manaus.

Entendemos que o anarquismo é uma prática e um sistema filosófico de ação social, pautada no antiautoritarismo e na liberdade social, liberdade essa que só pode ser conquistada através de uma transformação social e não somente individual, por isso rompemos com o individualismo que apenas restabelece um ideal liberal e pequeno burguês.  

A apropriação da teoria anarquista é apenas uma parcela, se for um fim em si, em nada estaremos transformando nossa realidade, será apenas um acúmulo teórico vazio e sem sentido, que sejamos um toco no meio do rio difícil de ser arrastado, resistente e que cresce, que de multiplica e altera o curso desse igarapé.

 Essas estruturas colonizadoras que perpassam as relações dentro dessa sociedade só tendem a atomizar os movimentos sociais, retirando destes também o espírito de transformação radical da sociedade. Essas estruturas necessitam serem rompidas, espaços possíveis precisam ser criados, onde não se espera.

Para tanto lutar contra um pensamento colonizador dentro dos movimentos sociais se faz necessário, romper com as estruturas hierárquicas estabelecias objetivamente e subjetivamente dentro de organizações sociais. A horizontalidade necessita ser praticada, bem como a diferenciação dos atores sociais e suas possibilidades. Que possamos junt@s construir lado a lado outras realidade social.

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