A constituição do
estado moderno perpassa por diversas condições para sua estruturação, para
tanto os limites territórios aliados há um dispositivo jurídico que legitima
sua ação dentro desse território determinado é ponto essencial para o
desenvolvimento e perpetuação de um modo capitalista de produção.
Consequentemente essa
divisão sociopolítica acaba constituindo uma diferenciação entre o nativo e o
estrangeiro, onde há o estrangeiro bem vindo, que se caracterizam naqueles que
detém sobre si poder legitimado do Estado e do capital, esses estrangeiros
fazem parte da lógica de produção e reprodução desse Estado Moderno,
consequentemente essa figura não é só bem vinda como também é beneficiada pela
sua presença, isso ocorre em condição microssocial e macrossocial, quando vemos
o jargão “isso é para inglês ver”, ou quando tratamos bem um estrangeiro
europeu.
Há também o estrangeiro que não é bem vindo,
que marginalizado se apresenta como sendo o imigrante, o invasor, aquele que
não devia estar aqui, que se encontra dentro de um gradual estado de risco, de
afastamento e de esquecimento. A esses estrangeiros nossa sociedade reserva o trabalho
superexplorado, ilegitimado, sua presença é tida como perigosa e seu local é no
gueto, nos becos, longe dos olhos das pessoas.
Esse sentimento xenofóbico
que parece ser naturalizado em nossa cidade é consequência também de uma lógica
de diferenciação entre os daqui e os de lá, o outro sendo colocado em segundo
plano, destituído de direitos e de reconhecimento social.
Essa distinção se é
perpetuada tanto por condições de ordem econômica e sociais, como por questões
subjetivas inseridas por uma educação colonial, que tenta perpetuar uma espécie
de identidade nacional, que une um povo ou nações sob ideais comuns que definem
um sujeito a partir de características culturais, por exemplo, o que diferencia
um trabalhador brasileiro e de um trabalhador argentino? O que diferencia uma
mulher brasileira e de uma mulher haitiana essa estrutura estabelecida pelo
capital? Em primeiro momento não se diferenciam em nada, mas quando nos
aproximamos e verificamos a formas de tratamento para um@ ou outr@, podemos
observar que ao estrangeiro incomodo lhe é imposto uma pesada carga de desconsideração
de identidade social.
Suas práticas
culturais, religiosas, sociais são estranhas e lhe é negado o direito de ser
como se é, passa-se a excluir a possibilidade d@ Outr@ se tornar companheir@ de
luta, não lhe dando crédito na possibilidade de construção de alternativas
sociais.
A exploração e expropriação que o capital
realiza sobre os sujeitos são inerentes a tod@s, no entanto, o imigrante se
encontra em condição de marginalidade acentuada e em constante risco de vida, por
conta dessa perpetuação de preconceitos que tem como referencia essa identidade
nacional.
A ideia de superação
desse nacionalismo é algo que se faz subjacente na luta por emancipação humana,
nos ideais socialistas e libertários. Têm em seu entendimento que o capital não
discrimina trabalhador, mas que explorar de qualquer modo a força de trabalho
independente de sua nacionalidade, mais ainda aqueles quem condição da
marginalização social.
Se analisarmos
essencialmente a palavra imigrante já
subjaz uma condição valorativa de marginalização em detrimento a palavra estrangeiro, que não apresenta essa
mesma conotação, a referencia nos jornais a imigrantes
são referencias a sujeitos em condições de risco social e discriminação, a
parcela conservadora que compõe a sociedade utiliza desses mecanismos para
influenciar na construção de uma falsa necessidade de que se faz necessário o
controle das fronteiras e do transito das pessoas em um determinado território.
Esse comportamento se é
perpetuado a partir de estruturas colonizadoras que promovem um sentimento de
nacionalismo, criando uma verdadeira barreira ente os daqui e os de lá, não se
trata de perspectiva, mas de um efetivo sistema que sectáriza a sociedade
impendido de ouvir o outro que é diferente.
A crença desse
nacionalismo perpassou inclusive diversos ramos socialistas por um tempo
durante o século XX, a necessidade de defender o mercado nacional ou a indústria
nacional, acaba reforçando a distinção entre nativo e estrangeiro, quando na
verdade deveria superar a questão do capital não importando a nacionalidade.
Esse sentimento de nacionalismo se mostrou historicamente nocivo e prejudicial
principalmente para uma proposta de superação de capital e de emancipação
humana. Assim como tivemos alguns ramos socialistas que mantiveram o ideal
internacionalista como proposta de ação social.
Cabe refletir que esse
comportamento xenofóbico seria combatido em qualquer ambiente libertário e
internacionalista, mas cabe ressaltar esse sentimento de baseia em práticas colonizadoras,
de imposição de um tipo de lógica e compreensão de mundo, pautada em um
sentimento de nacionalismo que se constrói para se assumir uma posição de poder
em relação a outro.
Os protestos de Junho
de 2013, no Brasil, esse sentimento de nacionalismo veio à tona, tanto
perpetuado por uma estrutura midiática como por influência de um conjunto de
instituições conservadoras (escola, empresas, igrejas) que reforçam esse
pensamento colonizado e nacionalista, que nos mostra que há uma disputa e uma
crítica necessária a ser realizada de um pensamento perigoso que cerca os
movimentos sociais.
Tendo em vista que
falar de movimentos sociais é uma categorização que acaba generalizando um
conjunto de sujeitos que estão em disputa por direitos diferenciados,
reconhecimento e afirmação de identidade, transformando um conjunto heterogêneo
de sujeitos coletivos com práticas e metodologias distintas, sob essa categoria,
se faz necessária essa generalização se faz na presente argumentação, apesar de
ser apenas um tipo de interpretação possível.
Nós do movimento social
necessitamos realizar uma crítica em relação a esse sentimento subjacente
colonizador que aparece em falas negligentes de sujeitos pertencentes a grupos
em atividades ou com experiência ativista dentro dos movimentos sociais. Ao
desconsiderar que em regiões distantes possam existir a possibilidade de
feminismo classista, do anarquismo, de um socialismo radical, estar-se
colocando estes grupos como sendo o outro e impondo uma lógica colonizadora de
um tipo de comportamento militante a ser seguido.
Se assim fizermos
estamos apenas reproduzindo outro mecanismo de hierarquização e estamos
usurpando a possibilidade de empoderamento que os sujeitos de sua história
possuem, impor uma maneira de agir para todos é ignorara própria trajetória
pessoal de cada militante. Sabemos que não é dado, mas construído historicamente,
dessa maneira não podemos entender a trajetórias de grupo como etapas a serem
cumpridas, que a partir de um formula mágica de militância se ira conseguir os
mesmo resultados de outras regiões.
Seria admitir que os
mecanismos do capitalismo fossem iguais em todas as regiões do planeta, e
sabemos que não o é, nem mesmo existe uma classe burguesa universal, do mesmo
tipo, em cada região há diferenças e características particulares a serem
levadas em conta, por isso apesar de não ser da mesma forma, devo afirmar que
existe feminismo no norte, existe anarquismo no norte, esses uma crítica
radical afastada do centro da discussão, que são marginalizados e deixados de
lado.
Do mesmo modo não se
pode negar que acumulo de experiências de luta em outras regiões só tende
sofisticar as estratégias de luta e reinjetar uma animo maior em diversos
outros grupos. Essa troca social que se faz necessária ser retomada para romper
com os perigos do sentimento colonizador.
Em alguns casos esse
sentimento pode ser visto em sujeitos que detém um tipo de conhecimento social
institucionalizado, que procuram dessa forma reafirmar essa posição como
mecanismo de poder em relação a outros sujeitos, reproduzindo dessa maneira o
discurso vazio intelectualizado sem prática social alguma.
Retornado a questão do
vetor social que necessita ser resgatado dentro dos movimentos libertários, no
caso de Manaus, em determinados momentos o pensamento tido como libertário
alojou-se dentro de instituições acadêmicas, como a Universidade Federal do
Amazonas, como sendo o único local de possibilidade de transformação social e de
espaço para essas ideias. Apesar de ser um espaço importante e icônico no que
se refere a resistência não pode ser compreendido como único espaço possível de
proliferação de ideais libertários, dessa forma, por conta de condições
históricas particulares, como repressão a ideias anarquistas e um
conservadorismo social instaurado pós ditadura, o anarquismo passou a ser
compreendido como alguns apenas como uma teoria, mas sem prática social,
liquidando dessa forma o vetor social por muito tempo do anarquismo na cidade
de Manaus.
Entendemos que o anarquismo
é uma prática e um sistema filosófico de ação social, pautada no
antiautoritarismo e na liberdade social, liberdade essa que só pode ser
conquistada através de uma transformação social e não somente individual, por
isso rompemos com o individualismo que apenas restabelece um ideal liberal e
pequeno burguês.
A apropriação da teoria
anarquista é apenas uma parcela, se for um fim em si, em nada estaremos
transformando nossa realidade, será apenas um acúmulo teórico vazio e sem
sentido, que sejamos um toco no meio do rio difícil de ser arrastado,
resistente e que cresce, que de multiplica e altera o curso desse igarapé.
Essas estruturas colonizadoras que perpassam
as relações dentro dessa sociedade só tendem a atomizar os movimentos sociais,
retirando destes também o espírito de transformação radical da sociedade. Essas
estruturas necessitam serem rompidas, espaços possíveis precisam ser criados,
onde não se espera.
Para tanto lutar contra
um pensamento colonizador dentro dos movimentos sociais se faz necessário,
romper com as estruturas hierárquicas estabelecias objetivamente e
subjetivamente dentro de organizações sociais. A horizontalidade necessita ser praticada,
bem como a diferenciação dos atores sociais e suas possibilidades. Que possamos
junt@s construir lado a lado outras realidade social.
Nenhum comentário:
Postar um comentário