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domingo, 15 de dezembro de 2013

Relações Possíveis

Anticapitalismo

Todo indivíduo em seu tempo histórico se posiciona diante das adversidades que lhe são apresentadas, para tanto, não poderia ser diferente conosco, compreendemos o capitalismo com um processo de produção material e ideológico que rege as atuais relações sociais em que nos encontramos. Esse sistema capitalista apresenta um ideal de sociedade pautada sobretudo a partir de um desenvolvimento de modernidade.

A modernidade se apresenta também, a partir de um projeto civilizatório, que tende a aprisionar, domesticar e integrar todos os povos que de alguma forma não se adéquam ao projeto estabelecido, para tanto acompanhamos um processo de totalitarização global, que os teóricos neoliberais chamam de economia global, sistema transnacional e/ou mundialização, esse processo se apresenta de forma violento sobre as populações tradicionais do planeta, entre eles indígenas, quilombolas, campesinos, aborígenes e ribeirinhos, destaco esse conjunto como sendo aqueles que mais sofrem, pois a construção de sentido de suas atividades é antagônica ao processo de industrialização global, mas esses povos se encontra a margem do projeto do capital.



Dessa maneira, diante desse processo levantam-se movimentos anticapitalistas no mundo inteiro resistindo ao avanço dessa lógica, entre eles o Exercito de Libertação Nacional Zapatista (ELNZ), em Chiapas, no México. Pode ser citado tanto pela sua importância diante da preservação de um tipo de cultura em relação ao projeto civilizatório, como também pelo seu caráter radical em propor uma alternativa ao estado capitalista. Pautado tanto na ação direta, como na construção de uma política educacional de enfrentamento a lógica social estabelecida.

Fazemos assim nossas palavras, as palavras do subcomandante Marcos

“Nossa reflexão teórica como zapatistas não é somente sobre nós mesmos, mas sobre a realidade em que vivemos. Isso nos aproxima e nos limita ao tempo, espaço e dessas estruturas conceituais que vivemos. Por isso rechaçamos as pretensões  da universalidade e eternidade em que dizemos e fazemos [...] A reflexão teórica sobre a teoria   se chama ‘Metateoria’. A Metateoria dos zapatistas é nossa prática” (Subcomandante Marcos, 2003) [tradução]

Dessa maneira a reflexão que o ELNZ tem, não pode ser ignorado, principalmente diante do conjunto de movimentos anticapitalista que surgem e retornam dentro do tempo em que nos encontramos, diante das adversidades de uma cidade que se construiu na exploração de migrantes nordestinos, que ampliou-se a partir da misérias de trabalhadores em fábricas e ribeirinhos, que amplia seu processo de exploração impondo uma lógica estatal, não podemos nos designar de outra forma se não, anticapitalistas.

Um@ anticapitalista é um@ marginal por excelência, inquiet@, disfuncional diante das estruturas que são lhe apresentadas em seu tempo, um tempo sem forma e sectário, que divide mulheres e homens, que constrói uma ilusão de possibilidades, mas que na verdade serve ao grande capital, que na verdade cessar as possibilidades humanas e desumaniza os sujeitos.

Dessa forma rechaçamos de modo radical essa lógica que hierarquiza as relações sociais, que promove a exploração humana, que depreda as consciências, pautada a partir do medo e da ilusão de liberdade.
Somos anticapitalistas, pois enquanto esse sistema estiver vigorando, enquanto este for o método hegemônico de produção, estaremos sendo antagônicos e nossos conceitos se apresentam na prática cotidiana de enfrentamento, sem recuar aos avanços neoliberais, buscando mecanismos de empoderamento popular, de instrumentalização e organização horizontais, não descansaremos um minuto até que possamos criar as bases para a derrocada do capital

Quando nos afirmamos como anticapitalistas estamos fazendo referencia a um contexto que ganha ênfase a partir do final do século XX, com luta de diversos grupos sociais contra as políticas financeiras mundiais, contras as instituições internacionais de regulação econômica e social. No entanto, precisa-se distinguir que nem todos os movimentos anticapitalistas estão situados dentro de um campo de luta radical em relação ao capitalismo, apesar de serem contra ponto.

Apesar dos movimentos anticapitalistas estarem relacionados com um enfrentamento ao Estado e ao Capital, não necessariamente estes movimentos tem em seu horizonte possibilidades socialistas. Defino o socialismo como parte de um conjunto ideológico que visa analisar profundamente o capitalismo, se posicionando como alternativa de produção, consequentemente nesse campo se encontra diversas possibilidades de categorias, conceitos e grupos sociais que conciliam um ideal de organização social tendo como parâmetro a horizontalidade social, cultural, econômica e política.

O socialismo é contraponto econômico, político e filosófico de enfrentamento a sociedade capitalista, tendo como agentes transformadores da sociedade a classe trabalhadora, haja visto que para o capital tod@s são trabalhador@s, no entanto, é preciso ressaltar que análise socialista é um viés de ação que surge no século XIX, a partir da organização da classe burguesa e do enfrentamento dessa classe pelo operariado. No entanto, essa conceituação requer mais aprofundamento, pois o socialismo como categoria de compreensão está em constante processo de debate e construção, mas para a presente reflexão se faz necessário que possamos compreender o socialismo com um projeto antagônico ao capitalismo.

Então isso nos levaria a perceber que ser anticapitalista e socialista estaria dentro do mesmo projeto de sociedade, mas ser anticapitalista não determina ser socialista, alguns movimentos que se dizem anticapitalistas, como os movimento que cercou Seatle, em 1999, apesar da revolta e do posicionamento contra os acordos de livre mercado e de política financeira internacional, não propunha uma transformação social, mas uma outra possibilidade de livre mercado que pudesse levar em conta as questões locais.

Apesar dos movimentos anticapitalistas sugerirem um contra ponto ao capital, alguns dos movimentos que o compõe não estão preocupados diretamente com uma superação do capital, por isso ao afirmamos que somos anticapitalistas e anarquistas, estamos nos afirmando como uma possibilidade de organização socialista libertária, sobre um ideal do anarquismo social.

O vetor social do anarquismo no Brasil surge a partir de sua aproximação com os grupos sindicais e trabalhadores nos primeiros 30 anos do século XX, esse vetor social também se perde muitas vezes quando vemos movimentos como Diretas Já, Fora Collar, Marcha de Junho no Brasil, que apesar de representar um descontentamento geral com os processos de desenvolvimento do capital, não aponta seu foco para a derrocada do capital.

Essa perca do vetor social necessita ser recuperada, principalmente em nossa região, onde individualmente diversos grupos libertários acabam surgindo, mas há uma dificuldade de aglutinação e organização, por conta desse afastamento em detrimento de um viés individualista e por conta da própria lógica neoliberal que ocupa os espaços de convivência social na cidade de Manaus.



Para tanto, vemos que um viés anticapitalista é necessário para nossa conjuntura, para especificar nossa luta contra o capital, junto à pluralidade étnica, cultural e social que perpassa a nossa região (amazônica), para tanto compreender o viés anticapitalista tendo como horizonte de transformação uma sociedade libertária, pautada em um socialismo de livre associação entre sujeitos individuais e coletivos, que pode ser construído através do anarquismo social.

É nessa perspectiva que entendemos que a construção de uma organização anticapitalista e anarquista não é apenas necessária, como o único caminho possível para nosso contexto, tendo em vista que como descendentes de indígenas, como descendentes negros, como ribeirinho nossa luta precisa ser afirmada sob um viés socialista libertário, o anarquismo como organização filosófica e metodológica se faz necessário para que possamos transformar a nossa realidade.

Assim quando afirmamos que somos anticapitalistas não acreditamos será através de instituições regidas pelo capital que iremos executar uma transformação, mas no universo fora do Estado, onde há a possibilidade de vida e de enfrentamento ao projeto autoritário imposto por suas instituições. Quando dizemos que somos anticapitalistas, estamos afirmando que a sociedade que almejamos está pautada na democracia direta e na autogestão, nas possibilidades de emancipação humana.




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