'' Índio não existe mais''. '' Índio que usa roupa não é mais
índio''. ''Estão atrapalhando o progresso do país''.'' Índio só
quer direitos''.''Estes não são mais índios. São invasores de
terras e posseiros''. Poderíamos ficar o dia todo listando as
diversas frases que as pessoas criam ao discutirem sobre o tema
INDIO. Paremos para pensar um pouco. Dizemos que os índios que usam
roupa, internet, carro, etc não são mais índios. Bem, pelo visto,
só o branco tem o direito de usufruir de confortos e utilidades que
a modernidade trouxe. OS índios não,
claro. Para poderem ser chamados como tal, devem estar totalmente
isolados, nus, em uma oca feita de palha ou barro e afastados de
qualquer outro elemento que interfira nos seus hábitos.
O descaso com esse grupo é tão grande
que não reconhecemos, em nenhum momento, que o preconceito que temos
com este grupo está enraizado, tanto por motivos históricos como
por econômicos e políticos atualmente. Na Amazônia a mão-de-obra
escrava predominante era a indígena (é preciso dizer predominante,
pois também existiam escravos negros aqui, segundo relatos
históricos, desde por volta do século XVIII). Na época da
borracha, quem realmente sabia coletar o látex da seringueira para
servir ao grande senhor de terra capitalista explorador e treinar os
trabalhadores vindos do nordeste, iludidos por uma mentira de vida
ganha na floresta, eram os indígenas. A cidade de Manaus é batizada
com um nome de uma etnia já extinta, a dos Manaós. E depois,
simplesmente dizemos que eles não existem! Os descartamos de nossa
vida, simplesmente, como se tivessem desaparecido, em uma magia
elaborada por feiticeiros interessados apenas em seus próprios
objetivos: o do capital, da exploração, do lucro que os donos de
cabeças de gado e de plantações de soja tanto anseiam, por
intermédio da negação de um universo cultural!
A mesma coisa que fizeram os missionários no século XVI ao querer
impor à força outra religião, juntamente com pensamentos e
costumes totalmente diferentes do que estão habituados, gerando
conflitos, violência e massacre. '' Ah, mas se ele está na cidade,
não é índio. É branco, que nem a gente''. Ser índio não é
vestir um cocar, ter os olhos puxados e usar tanga. É muito mais
além. Tem haver com um sentimento de pertencimento, de identidade. É
sentir que você é indígena. E que participa de um grupo detentor
de uma história, de uma economia, de uma religião, de uma moral, de
uma cultura própria e finalmente, de uma terra própria, que há
centenas de anos ocupavam. Contudo, pelo olhar do capitalismo, nada
disso existe. Nada deve ser reparado. As cotas para índios, por
exemplo, são motivo de críticas que, baseadas em um princípio de
mérito, remetem à injustica para aqueles que estudaram
incansavelmente em escolas particulares, em cursinhos caríssimos e
que possuem condições materiais e imateriais muito mais
privilegiadas do que outros grupos subjulgados por aqueles que
possuem oncinhas a mais .
Quase não vemos indígenas nas universidades. A ciência hoje ainda
é, predominantemente, branca. O inacesso destes aos vários setores
da sociedade, como educação, assistência social e saúde é
notório. O Estado, atualmente, mantém uma política de não-diálogo
com os movimentos sociais indígenas. Atualmente, está acontecendo
uma ocupação de cerca de 200 índios se revezando na sede regional
da FUNAI, na rua Maceió, no bairro vieiralves. Os jornais e a
televisão simplesmente não dão a mínima para as reivindicações
daquele grupo, e fizeram tímidas e pobres notícias. O objetivo
deste levante é a saída do coordenador geral Eduardo
Deisídio?. O argumento é de que esta
pessoa não está cumprindo seu papel a frente da instituição, e
que não conhece as demandas dos índios. Querem diálogo, mas o
governo não dá. Por que? Porque o governo está do lado dos grandes
empresários. Do capitalismo. E não daqueles que são explorados por
esse sistema que massacra os indivíduos aé a última gota de suor.
Este grupo que faz acontecer este zine acredita que somente uma
tomada de consciência da realidade que vive e de uma organização
de todos aqueles que também sofrem com esta escravidão baseada no
dinheiro, no consumismo e na exploração dos menos favorecidos é
capaz de enfrentar e de mostrar alternativas de uma nova sociedade
que pode vir, onde índios, negros, mulheres, ou nenhum outro grupo
será mais discriminado e violentado!SOMOS TODOS INDÍGENAS! SOMOS
BARÉS, MUNDURUCUS, MURAS, KOKAMA E MAIS TODOS! ESTAMOS DO LADO DE
VOCÊS! VAMOS À LUTA! CONTRA A LÓGICA DO CAPITAL! FORA RURALISTAS!
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